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Noel Rosa: Poeta da Vila, do Samba, do Povo

Hoje em dia, quando, inclusive, tanto se fala em poesia "participante", nacionalismo literário (já houve até um professor de filosofia que exprimiu esta aberração filosófica: a realidade nacional é uma forma do conhecimento) ou arte popular, é bom lembrar Noel Rosa. Sambista de Vila Isabel, pequeno burguês, embora sem as altas pretensões "nacionalistas", abafa todos aqueles rótulos, aquelas abstrações forçadas. A comparação com a sua obra literária-musical, deixa-os, na imensa maioria, reduzidos à comprovação do vazio onde vicejam, à exceção da plenitude imediatamente comercial , quando alguns editores sabem impingir os "participantes" a curto" prazo, como mercadoria de consumo. Os grandes poetas participantes não precisaram disto, pois o que se pode denominar participação infere uma vivência, isto é, a capacidade de propiciar a expressão, a linguagem poética germinada de um comportamento contingente - de dentro - e, não uma versalha artificial gerada em estufas, quer dizer, nos gabinetes estofados e refrigerados de quem, amiúde, representa outras classes e ambições e fala no povo, nos pobres ou nos proletários, como um mero pretexto para falar em si mesmo. Aliás, o exemplo não precisaria, necessariamente, ser o de Noel - poderia ser o dê outros nomes do cancioneiro popular. Invocamos o seu exemplo, porque, em nossa opinião, é o maior de todos.
Em suma: se quisermos um exemplo autêntico de arte popular, aí está o samba, a seresta, porque feitos por gente do povo,
ad marginem das elites culturais. Um dos veículos através do qual representantes das massas (usado aqui o termo em contraposição à noção de qualquer gênero ou espécie de elite) fala sem precisar que o interpretem ou falem por si. E só assim seria possível: todos os contendas expressivos formam-se dentro de um dado campo do comportamento. Expressar de fora, em nome de classe, uma vivência ou mesmo de uma elite diversa, seria idêntico a assistirmos um intelectual em idade provecta fazendo arte infantil.

* * *

O intróito acima era necessário a fim de melhor justificar e formular a importância que conferimos ao artista Noel Rosa, com a sua vivência que forjou páginas lapidares daquilo a que poderíamos chamar de saga do carioca. Noel na Vila, no Café Nice, subindo ao morro ou encerrado em seus problemas domésticos. Os violões, as serenatas, as polêmicas (Noel x Wilson Batista), a malandragem, os bate-papos, as comidas nos táxis, os cabarés, as excursões artísticas, o estudo da medicina, os botequins, as apostas, o rádio, a política, enfim, a notícia, o faro de um jornalista que compõe artisticamente seus comentários. Sem isto, sem também o talento, não teríamos jamais, incorporado ao patrimônio espiritual do Rio, peças definitivas que expressam como é este mesmo Rio, vivido pelo carioca: "Conversa de Botequim", "Com que Roupa", "Pra Esquecer", "João Ninguém", "Onde Está a Honestidade?", "Feitiço da Vila", "Mulata Bamba", "Mentiras de Mulher", "O Orvalho Vem Caindo" ou "Coisas Nossas".
Noel de Medeiros Rosa nasceu em Vila Isabel, à Rua Teodoro da Silva n° 130, em 11 de dezembro, de 1910. Desde a juventude familiarizou-se com os instrumentos musicais - bandolim e violão. Conseguiu terminar o seu curso secundário, mas já estava dominado pela música, tocando, inclusive, o seu violão em festas do bairro. Depois, chega o momento radical em sua carreira: conhece Almirante e João de Barro, que, posteriormente, levam-no a integrar o famoso Bando dos Tangarás, que além dos três, tinha mais dois elementos: Alvinho e Henrique Brito. Aliás, o primeiro samba de Noel foi gravado, na Parlophon, pelo Bando dos Tangarás: "Eu Vou Prá Vila" (depois regravado, num excelente longplaying, de Aracy de Almeida: "Não tenho medo de samba/ na roda do samba/ sou bacharel... "). Naquela etiqueta, no mesmo ano, surge o antológico "Com Que Roupa"?, nascido da inspiração fornecida por esse termo pitoresco, que logo virou gíria: "Eu hoje estou pulando como sapo/ prá ver se escapo/ desta praga de urubu/ já estou coberto de farrapo/ eu vou acabar ficando nu/ meu paletó virou estopa/ e já nem sei mais com que roupa/ eu vou/ pro samba que você me convidou/ com que roupa eu vou/ pro samba que você me convidou". Há muitas lendas concernentes aos fatos que teriam instigado o autor a elaborar "Com que Roupa?", mas Almirante, em seu livro, "No Tempo de Noel Rosa", desmente a veracidade de todos. A gravação foi consumada na voz de Noel, acompanhado por cavaquinho e violão e quando estamos no finale, com estes instrumentos, a voz do cantor reaparece inesperadamente, a conclamar: "vai de roupa velha, seu p... ".
Tudo isso ainda não chegou a impedir que ele resolvesse, afinal, fazer o seu vestibular para a Faculdade de Medicina, aonde compareceu durante dois anos. Mas o samba abafava o interesse pela medicina, embora esta não deixasse de inspirar o primeiro. Um dia, saindo da faculdade, vai ao Café Nice e, lá, escreve a letra de "Coração" - samba fabuloso, pelo ineditismo do seu tom didático, quase uma objetividade total, como querendo desmistificar a grandiloquência lírica incorporada à palavra coração: "Coração/ grande órgão propulsor/ transformador do sangue/ venoso em arterial/ coração/ não és sentimental/ mas, entretanto, dizem/ que és o cofre da paixão", valendo ressaltar o trecho em que diz: "Eu afirmo/ sem nenhuma pretensão/ que a paixão faz dor no crânio/ mas não ataca o coração".
"Prefiro ser um bom sambista a ser um mau médico" - traçara o seu destino; e "Coração" foi uma última hommage à medicina. Começou a aparecer mais amiúde em espetáculos públicos e a excursionar com o Bando dos Tangarás. Um ano depois, já com uma farta bagagem musical e discográfica, é o encontro e reunião de Noel com outro grande compositor e um grande cantor: Ismael Silva e Francisco Alves, respectivamente, Nilton Bastos, o grande parceiro de Ismael, havia morrido há pouco e, em sua homenagem, temos logo um belo samba, do trio Chico-Ismael-Noel, "Adeus": "Adeus, adeus, adeus/ palavra que faz chorar...". A seguir, outras bonitas composições do trio ou da dupla Noel-Ismael: "Ando cismado", "Assim sim", "Gosto mas não é muito", "Uma Jura que fiz", "Quem não quer sou eu", "Para me Livrar do mal", "Mas como... outra vez?", "Nem com uma flor". Além de Ismael e de um parceiro constante de notáveis sucessos, como foi Vadico, outros nomes famosos compuseram em parceria com Noel: Ari Barroso, Kid Pepe, Vogeler, Eduardo Souto, Visconde de Bicuhyba, Orestes Barbosa, Nássara, Nonô, João de Barro, Donga, José Maria de Abreu, Lamartine Babo, Bide, Hervê Cordovil, Custódio Mesquita, Almirante, Cristóvão de Alencar etc. Em paralelo, cabe frisar que os nossos maiores cantores interpretavam e gravavam Noel; e outros, através de suas criações musicais, subiram ao apogeu ou se especializaram como intérpretes vocais do poeta da vila: Francisco Alves, Mário Reis, João Petra de Barros, Sylvio Caldas, Orlando Silva, Marilia Batista, Aracy de Almeida. Contudo, apesar da imponente galeria de astros, e com a exceção evidente de Mário Reis (é só lembrar a interpretação magistral de "Mulato bamba": "Esse mulato forte/ é do Salgueiro/ passear no tintureiro/ era o seu esporte/ já nasceu com sorte/ e desde pirralho/ vive à custa do baralho/ nunca viu trabalho"), o maior intérprete de Noel foi mesmo o próprio Noel. A sua voz poderia ser fraca, "feia" ou algo anasalada, mas possuía uma inegável intensidade expressiva, sabia dar o tônus propício, seja para a sátira, o sarcasmo, a farsa e, mesmo, a melancolia. E, ao lado do colorido, sabia forjar a precisão da secura. Tome-se, por exemplo, o caso de "Conversa de Botequim" ("Seu garçom faça o favor de me trazer depressa uma boa média que não seja requentada, um pão bem quente com manteiga à beça, um guardanapo e um copo d'água, bem gelada fecha a porta da direita, com muito cuidado, que eu não estou disposto a ficar exposto ao sol, vá perguntar ao seu freguês do lado qual foi o resultado do futebol") - talvez a sua obra-prima, pela perfeita adequação isomórfica entre o ritmo e o texto, quando o sentimento, vazado em secura e extrema objetividade musical no utilizar a voz, é insuperável, embora os encômios que mereçam as versões de Aracy de Almeida. Ouça-se à sua criação vocal de "João Ninguém", onde a interpretação fornece aquele tom definitivo de "cor local": "João Ninguém/ que não é velho nem moço/ come bastante no almoço/ pra esquecer o jantar...". Recorde-se o virtuosismo do mesmo Noel, interpretando o seu "Gago apaixonado" ("Mu... mu... mulher em mim fi... fizeste um estrago/ eu de nervoso esto ... tou fi ... ficando gago/ não po... posso com a cru... crueldade/ da saudade/ que... que mal... maldade/ vi vivo sem afago" onde há, inclusive, o insólito acompanhamento de uma pessoa que bate com um lápis nos dentes. E a melancolia otimamente dosada, em sua interpretação do samba "Felicidade", de René Bittencour, ou em dupla com Arthur Castro, no magistral "Devo Esquecer", composto em parceria com Gilberto Martins. Aliás, também em parceria vocal com Marilia Batista, deixou gravações inesquecíveis, como, por exemplo, aquela de um de seus maiores sambas, "Você vai se quiser": "Você vai se quiser (bis)/ pois à mulher/ não se deve obrigar a trabalhar/ mas não vá dizer depois/ que você não tem vestido/ que o jantar não dá pra dois".
Em 1933, ocorre a famosa polêmica com Wilson Batista e, dai, um maior pretexto para que glorificasse em definitivo o seu bairro, Vila Isabel. Dois de seus maiores e mais conhecidos sambas nasceram desse debate: "Feitiço da Vila" (Quem nasce lá na Vila/ nem sequer vacila/ ao abraçar o samba/ que faz dançar, os galhos do arvoredo/ e faz a lua nascer mais cedo") e "Palpite Infeliz" ("Quem e você que não sabe o que diz/ meu Deus do céu que palpite infeliz/ salve Estácio, Salgueiro e Mangueira/ Oswaldo Cruz e Matriz/ que sempre souberam muito bem/ que a Vila não quer abafar ninguém/ só quer mostrar que faz samba também"). E, nesse mesmo ano, emerge uma grande safra de criações de Noel, entre outros: "O orvalho vem caindo", (parceria com Kid Pepe), ("O orvalho vem caindo/ vai molhar o meu chapéu/ e também vão sumindo/ as estrelas lá do céu/ tenho passado tão mal a minha cama é uma folha de jornal"), "Onde esta a Honestidade?" "Vassoura dos salões de sociedade/ que varre o que encontrar em sua frente/ promove festivais de caridade/ em nome de qualquer defunto ausente/ e o povo já pergunta com maldade/ onde está a honestidade? - bis"). "Mentiras de mulher", "Que eu tenho horror ao batente/ que não sou doente/ pode crer quem quiser/ que eu sou fingido e malvado/ que até sou casado/ são mentiras de mulher"), "Arranjei um fraseado" (Arranjei um fraseado que já trago decorado/ para quando te encontrar/ como é que você se chama?/ quando que você me ama?/ onde é que vamos morar?"), "Positivismo", com a notável letra, segundo alguns só de Orestes Barbosa ("Vai coração que não vibra/ com teu juro exorbitante/ transformar mais outra libra/ em dívida flutuante"), "Prá Esquecer" ("Naquele tempo em que você era pobre/ e eu vivia como um nobre/ a gastar meu vil metal! e por minha vontade/ você foi para a cidade/ esquecendo a solidão e a miséria daquele barracão"), "Três Apitos" ("Você que atende ao apito/ de uma chaminé de barro/ porque não atende ao grito/ tão aflito/ da buzina do meu carro").
Em 1934 Noel excursiona com o fabuloso Grupo Gente do Morro, de Benedito Lacerda, enriquece ainda o seu acervo de composições e, nos ultimos meses, provavelmente pelos excessos; da boêmia, começa a sua saúde a se ressentir. Por causa disso, passou grande parte de 1925 em repouso em Belo Horizonte, embora não evitasse algumas constantes da mesma boêmia. Em setembro retornou à Vila, intensificou o número de composições ("João Ninguém", "Pierrô Apaixonado", "Só Pode ser você, e, junto com João de Barro, a marcha "Linda Pequena", que, mais tarde com a letra algo modificada, tornou-se na famosa "As Pastorinhas" - um de seus maiores sucessos). Em 1936, colabora na parte musical do filme "Cidade Mulher". No início de 1937, volta a fazer uma temporada de descanso, agora em Nova Friburgo, volta logo para o Rio e, pouco tempo depois, escreve o seu último samba. "Eu sei Sofrer". Em 1° de maio sente a última crise aguda de hemoptise, ao visitar a represa do Ribeirão das Lajes. Três dias depois, a 4 de maio, morre na Rua Teodoro da Silva. No dia seguinte, o seu enterro para o cemitério do Caju. Estava morto o maior compositor popular do Brasil, mas desde a morte, a abertura para o reconhecimento e consagração parece infinita. Sua obra traduziu como nenhuma o espírito do carioca, situado numa dada época. Noel: poeta da Vila, poeta do samba, poeta do povo.

Correio da Manhã
20/01/1965

 
Vogeler: resposta do tempo
Correio da Manhã 19/11/1964

Sinhô: o rei do samba
Correio da Manhã 25/11/1964

Pixinguinha: Dos Sete Instrumentos
Correio da Manhã 02/12/1964

Ismael: o bamba do Estácio
Correio da Manhã 09/12/1964

Orestes: Poesia e Seresta
Correio da Manhã 16/12/1964

Francisco Alves: o rei da voz
Correio da Manhã 23/12/1964

Benedito Lacerda: ou A Flauta de Prata
Correio da Manhã 30/12/1964

Cândido das Neves “Índio”: seresteiro da cidade
Correio da Manhã 06/01/1965

Orlando Silva: o cantor das multidões
Correio da Manhã 13/01/1965

Noel Rosa: Poeta da Vila, do Samba, do Povo
Correio da Manhã 20/01/1965

Ernesto Nazareth: o criador do tanguinho
Correio da Manhã 27/01/1965

Carmen Miranda: "A pequena notável"
Correio da Manhã 03/02/1965

Joubert de Carvalho: o criador de "Maringá"
Correio da Manhã 10/02/1965

André Filho: da Cidade Maravilhosa
Correio da Manhã 17/02/1965

Mário Reis: Rei da bossa
Correio da Manhã 24/02/1965

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