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Pixinguinha: Dos Sete Instrumentos

Dentro de nossa música popular, Pixinguinha é um mundo: compositor, arranjador, regente, organizador de conjuntos e orquestras e fabuloso virtuose, como instrumentista - a flauta e o saxofone. O samba, especialmente o seu ritmo e a sua timbrística, não seria o mesmo sem ele. E até hoje contribui. Pixinguinha representa meio século de música autenticamente brasileira.

Alfredo Rocha Viana Filho, ou Pizindin ou depois, Pixinguinha (apelido criado por sua avó), nasceu, em 23 de abril de 1898, na Rua da Floresta, hoje Rua Padre Miguelino, no Catumbi. Aos 9 anos, já tocava o cavaquinho, pois o ambiente em casa era francamente musical. Depois, logo aprendeu a solar com a flauta e, assim, em 1911, já compunha o seu primeiro chorinho, "Lata de Leite". Foi também, juntamente com Sinhô, Donga e outros ases, frequentador da famosa casa da baiana Tia Ciata. Aos 15 anos, obtém um emprego de flautista na orquestra do Pádua, na Lapa. Mais tarde, passou a integrar a orquestra do Cine Teatro Rio Branco, sob a regência de Paulino do Sacramento, onde estreou com a peça "Chegou Neves". Ao mesmo tempo, Almirante registra, em "No Tempo de Noel Rosa", a colaboração de Pixinguinha e o seu assim denominado Grupo do Caxangá com o "Tenentes do Diabo", cuja sede era, na época, no 1° andar de um prédio, à Rua Uruguaiana n° 9. O diretor do "Tenentes do Diabo" instalou um coreto no Largo da Carioca, durante os 3 dias de Carnaval. No coreto, exibia-se o grupo de Alfredo Rocha Viana. Posteriormente, Isaac Frankel, então gerente do cinema Palais, na Avenida Rio Branco, contratou o grupo para se exibir ali, primeiro na sala de projeção, depois, com o êxito, na sala de espera. Entrou-se em entendimentos técnicos e o grupo foi reduzido. Dai, nasceram os Oito Batutas: Pixinguinha, seu China (Otávio Viana), Donga (Ernesto dos Santos), Raul Palmiéri, Nélson Alves, José Alves, Luís Silva e Jacob Palmieri. Era também um festival de instrumentos: flauta, piano, violão, cavaquinho, bandolim, ganzá, bandola, reco-reco, pandeiro. O delírio era tremendo, o público escorria para ouvir os Oito Batutas; Rui Barbosa como um dos fãs. Semanas após, ainda é Almirante quem registra no volume supracitado, exibiram-se pela primeira vez num palco: Cinema América, na Praça Saenz Pena. E foram excursões por todo o Pais, sem falar na participação em um piquenique na Tijuca, em homenagem aos reis da Bélgica, que visitavam o Brasil. Nessa altura, os Oito Batutas já eram uma instituição. E foi, assim, por influência do bailarino Duque, junto a Arnaldo Guinle, que se forneceram passagens ao conjunto para exibir-se na França – cabaré Scherazade - onde o sucesso foi também retumbante. Zarparam em 29 de janeiro de 1922, pelo vapor "Massilla", e, de volta da Europa, foram direto a Buenos Aires, onde·, inclusive, fizeram algumas gravações. O regresso, aqui no Brasil, traduziu cerca de dois anos pontificando no Assírio, subsolo do Teatro Municipal, onde já haviam atuado tempos atrás. Pixinguinha casou-se em 1927. Pouco depois, entrou para o rádio e iniciava uma grande fase de gravações. Na Victor, formou dois grandes conjuntos: primeiro, o Grupo da Guarda Velha; após, Os Diabos do Céu. Acompanharam grandes cantores, como Mário Reis, Francisco Alves, Carmen Miranda, Sílvio Caldas, Murilo Caldas (este, por exemplo, num clássico da música popular, "Adeus Morena", de Gastão Vianna, regravado decênios depois pelo próprio Pixinguinha e sua agora Velha Guarda, no long-playing "Carnaval da Velha Guarda"), valorizaram a partitura de sambas e marchas famosas: "Linda Morena", "Linda Lourinha", "É Bom Parar", "Anoiteceu", "Alô Alô", "Agora é Cinza" etc. A seguir, Pixinguinha criou também sua orquestra na Colúmbia e, dela, nasceu a primeira e antológica gravação do também antológico "Implorar", de Gennano Augusto e Kid Pepe, na voz, ainda sem breque, de Moreira da Silva. Trata-se de um disco inteiramente de cor azul, do selo à cera, e, hoje, dos mais caros aos colecionadores. Assim, desde a fase importante das gravações dos Oito Batutas na Odeon (quando encontraremos outro autêntico clássico de sua autoria, "Pé de Mulata", no berro notável de Patrício Teixeira: "Teu pé, mulata! pisa no chão/ pisa e maltrata/ meu coração"), da orquestra típica. Pixinguinha e Donga, na Parlophon, até o "Implorar", na Colúmbia, a contribuição do mestre no terreno das gravações já era inestimável. É lembrar Chico Alves, em 1927, em disco Odeon, cantando o fabuloso "Eu Vou Chorar", de E. A. Sena, acompanhado pelos Oito Batutas. É ouvir Patrício Teixeira brilhando no "Gavião Calçudo", outra composição de Pixinguinha ("Quem tiver mulher bonita/ cuidado com o gavião/ ele tem unha comprida/ bota os maridos na mão"), gravada três vezes pelos seus diversos grupos orquestrais; a última delas também no "Carnaval da Velha Guarda". Ou, numa gravação Odeon, o próprio Alfredo Viana solando "lolanda". Em 1940, chegou a vez de Leopold Stokowski entusiasmar-se, e de retorno aos EUA, levar os registres na cera.
Em 1946, é a série de discos, a maioria de choros, com uma dupla insuperável: Pixinguinha (saxofone, e Benedito Lacerda (flauta). Trocara a flauta pelo saxofone. Em 1954, Almirante organiza a Velha Guarda: é um despertar do marasmo. Os veteranos dão uma verdadeira lição de autenticidade e de competência: o próprio Almirante, Pixinguinha, Donga, João da Bahiana, J. Cascata, Patrício Teixeira, Alfredinho, Bide e muitos mais. Em 30 de março de 1956, o prefeito Negrão de Lima dá o nome de Pixinguinha à rua de Olaria onde reside, antiga Belarmino de Brito. Os long-playings gravados pelos veteranos passam a ser dos mais importantes na série moderna. São os seguintes: A Velha Guarda; Carnaval da Velha Guarda; Festival da Velha Guarda; Carnaval de Nássara; Marchinhas de João de Barro e Alberto Ribeiro; Pixinguinha e sua Banda; Carnaval dos Bons Tempos; Assim é que é Pixinguinha; Cinco Companheiros; (são realmente excepcionais estes dois últimos citados - obrigatórios como integrantes de uma discoteca radical da música popular brasileira, na faixa instrumental).
A figura de Alfredo Rocha Viana Filho como compositor é básica. Tão importante, com o Sinhô e Noel. O choro - o virtuosismo conduz alegria, engendra melancolia: "Sofres Porque Queres", "Um a Zero", "Naquele Tempo", "Cinco Companheiros", "Proezas do Solon", "Aguenta seu Fulgêncio" ou "Lamento", ressaltando o famosíssimo "Carinhoso" ou "Mentirosa", cantados por Orlando Silva em sua fase áurea. Aliás, foi também Orlando Silva quem gravou a valsa "Página de Dor", música de Pixinguinha, letra de Cândido das Neves "Índio" "Apoteose do Amor" (clássico da seresta), com o mesmo letrista e, segundo Ary Vasconcellos, no seu "Panorama da Música Popular Brasileira", música definitivamente comprovada como sendo de autoria de Pixinguinha, e "Rosa". "Rosa" constitui um fenômeno à parte. É uma composição antiga e foi gravada em 1917 em disco da Casa Edison. Tempos depois, surge uma letra para a valsa, atribuída, lendariamente ou não, a um mecânico do Méier, E, em 1937, é magistralmente gravada por Orlando Silva. Seus versos traduzem o esfuziante delírio rococó de um primitivismo metafórico sem qualquer compromisso com o bom senso. "Rosa" não faz sentido, é quase surrealista à outrance, com sua adjetivação à la diable. Mas é uma estação de encantamento com adequação à música que só uma pureza de criança seria capaz de forjar. É poesia, um círculo concêntrico de imagens, isoladamente de mau gosto, mas que relacionadas, criam o élan inocente da irrealidade referencial: "Tu és divina e graciosa / estátua majestosa / do amor..." O samba - o já citado "Gavião Calçudo", "Teus Ciúmes", "Ai Eu Queria", "Urubatan". A marcha cívica "Céu do Brasil", os tangos, "Fraternidade" e "Mis Tristezas Loro". Todos os gêneros e recursos: a fonte é plurivalente.

Retificação: no texto acima sobre Pixinguinha, atribuímos, inadvertidamente, a Orlando Silva uma gravação do seu choro "Mentirosa", quando o que foi gravado por aquele intérprete é um outro chorinho, homônimo, de autoria da dupla Custódio Mesquita - Mário Lago.

Correio da Manhã
02/12/1964

 
Vogeler: resposta do tempo
Correio da Manhã 19/11/1964

Sinhô: o rei do samba
Correio da Manhã 25/11/1964

Pixinguinha: Dos Sete Instrumentos
Correio da Manhã 02/12/1964

Ismael: o bamba do Estácio
Correio da Manhã 09/12/1964

Orestes: Poesia e Seresta
Correio da Manhã 16/12/1964

Francisco Alves: o rei da voz
Correio da Manhã 23/12/1964

Benedito Lacerda: ou A Flauta de Prata
Correio da Manhã 30/12/1964

Cândido das Neves “Índio”: seresteiro da cidade
Correio da Manhã 06/01/1965

Orlando Silva: o cantor das multidões
Correio da Manhã 13/01/1965

Noel Rosa: Poeta da Vila, do Samba, do Povo
Correio da Manhã 20/01/1965

Ernesto Nazareth: o criador do tanguinho
Correio da Manhã 27/01/1965

Carmen Miranda: "A pequena notável"
Correio da Manhã 03/02/1965

Joubert de Carvalho: o criador de "Maringá"
Correio da Manhã 10/02/1965

André Filho: da Cidade Maravilhosa
Correio da Manhã 17/02/1965

Mário Reis: Rei da bossa
Correio da Manhã 24/02/1965

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