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Orestes: Poesia e Seresta

No panorama de nossa música popular, alguns letristas, analisada a sua atividade isoladamente, são dos mais importantes. Entre eles, com grande destaque, a contribuição de Orestes Barbosa. Orestes e a seresta: quantas melodias sentimentais, delineadas pelos seus versos, são cantadas e invocadas até hoje. E também gravadas e regravadas incessantemente, como um dos pontos máximos do nosso cancioneiro. Luar-janela-violão: montagem concreta e sintética do espírito seresta, do temperamento de Orestes. E dois grandes cantores como Francisco Alves e Silvio Caldas. Imortalizaram na cera as suas principais composições no gênero - gênero este em que também pontificaram um Freire Júnior, um Cândido das Neves "Índio", um Uriel Lourival ou um J. Cascata. Mas, nesse terreno, ninguém o superou em composições que, se de um lado mantinham a tradição de um primitivismo metafórico, com imagens forjadas nos arroubos de um preciosíssimo rococó, de outro, chegavam, não raro, a transmitir a pura estesia poética, cujo ponto máximo, nele, é provavelmente o decassílabo - "tu pisavas nos astros distraída", do Chão de Estrelas, verdadeiro touchstone em língua portuguesa. Outra característica do estilo de Orestes Barbosa é a riqueza de suas rimas. É ressaltar a identidade: riqueza é igual a surpresa – fator exponencial para o jogo de palavras, ou, em outras "palavras", a própria poesia.
Orestes Barbosa nasceu em 1893, aqui, em Aldeia Campista. Viajou bastante e, desde bem jovem, militou no jornalismo, tendo marcado a sua presença em vários órgãos da imprensa. Em 1933, numa edição da Livraria Educadora, lançou o livro Samba, esgotado e, até hoje, valiosa fonte de referências para estudiosos no assunto. Basta comprovar que a imensa maioria dos volumes dedicados à nossa música popular citam fartamente o seu livro, os seus conceitos.
Com a exceção dos sambas ou da marcha. Há uma Forte Corrente contra Você, o instrumento propício para embalar seus versos é sempre o violão, para o qual dedicou, inclusive a composição, Meu Companheiro. O violão e as serestas, onde o palco de fundo oscila entre a melancolia do morro e o luxo e a solidão na cidade e quando a mágoa do amor é uma constante: "E no anseio da desgraça/ encha mais a minha taça/ para afogar a visão/ quanto mais bebida eu ponho/ mais cresce a mulher no sonho/ na taça e no coração" - A Mulher que Ficou na Taça; "Na febre dos meus desejos/ fui à procura de beijos/ em bocas tão desiguais/ e agora de beijos farto/ tristonho volto pro quarto/ quero chorar, nada mais" - Quase que Eu Disse; "'tu sobes este barranco/ sujando o vestido branco/ pisando as pedras do chão/ mas sem saber na verdade/ que desde lá da cidade/ tu pisas meu coração" - Torturante Ironia; "Cansei de esperar por ela/ toda a noite na janela/ vendo a cidade a luzir/ nesses delírios nervosos/ dos anúncios luminosos/ que são a vida a mentir" - Arranha-Céu.
Os achados imagísticos e o manancial de metáforas insólitas: "o til das sobrancelhas/ que é o til da palavra não" - A Única Rima; "dorme a teus pés o meu ciúme/ enjeitado e faminto como um cão" - Serenata; "dorme, fecha este olhar entardecente" - Serenata; "Num mar de franjas e plumas/ de gargalhadas, escumas,/ nas tardes de resplendor" - Santa dos meus Amores; "a vespa da intriga" - Quase que eu Disse; "coração, ninho de penas/ no arminho de almas serenas"- Dona da Minha Vontade.
O samba
Positivismo, composto em parceria com Noel Rosa, merece um registro especial. Antes da Continental haver lançado, há quase dez anos, um histórico long-playing, contendo oito faixas de gravações originais, na base do "Noel canta Noel", Positivismo permanecia praticamente esquecido. Aí então voltou o impacto de uma das peças mais saborosas do nosso cancioneiro, com a sua inteligência satírica: "O amor tem por princípios a ordem conjugal/ o progresso é que deve vir por fim/ desprezaste essa lei de Augusto Comte/ e foste ser feliz longe de mim"; "A verdade, meu amor, mora num poço/ é Pilatos lá na Bíblia que nos diz/ que também faleceu por ter pescoço/ o autor da guilhotina de Paris". Exhibits rápidos de um texto excepcionalmente longo para o samba e onde, para formular a "filosofia do amor", mescla-se a história com filósofos, finanças e um esquema rímico dos mais curiosos. Como predomina o espírito Noel em Positivismo, à falta de informações mais precisas, torna-se difícil atestar até que ponto incidiu a colaboração de Orestes Barbosa. Vale, contudo, o registro.

Correio da Manhã
16/12/1964

 
Vogeler: resposta do tempo
Correio da Manhã 19/11/1964

Sinhô: o rei do samba
Correio da Manhã 25/11/1964

Pixinguinha: Dos Sete Instrumentos
Correio da Manhã 02/12/1964

Ismael: o bamba do Estácio
Correio da Manhã 09/12/1964

Orestes: Poesia e Seresta
Correio da Manhã 16/12/1964

Francisco Alves: o rei da voz
Correio da Manhã 23/12/1964

Benedito Lacerda: ou A Flauta de Prata
Correio da Manhã 30/12/1964

Cândido das Neves “Índio”: seresteiro da cidade
Correio da Manhã 06/01/1965

Orlando Silva: o cantor das multidões
Correio da Manhã 13/01/1965

Noel Rosa: Poeta da Vila, do Samba, do Povo
Correio da Manhã 20/01/1965

Ernesto Nazareth: o criador do tanguinho
Correio da Manhã 27/01/1965

Carmen Miranda: "A pequena notável"
Correio da Manhã 03/02/1965

Joubert de Carvalho: o criador de "Maringá"
Correio da Manhã 10/02/1965

André Filho: da Cidade Maravilhosa
Correio da Manhã 17/02/1965

Mário Reis: Rei da bossa
Correio da Manhã 24/02/1965

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