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Benedito Lacerda: ou A Flauta de Prata

Não foi, até hoje, conferida, a real e merecida posição de destaque de Benedito Lacerda, entre os grandes de nossa música. Assim como Pixinguinha, a sua atuação foi das mais aberas, das mais abrangentes: compositor, instrumentista (insuperável na flauta), cantor, professor de música, arranjador, condutor de orquestras e conjuntos e administrador (presidente da SBACEM). Como compositor, não superou a capacidade de criação de Pixinguinha, mas deixou um respeitável saldo, inclusive, de grandes sucessos de carnaval: "Despedida de Mangueira", "Quem Chorou Fui Eu", "A Jardineira", "Verão do Haway", "A Lapa", "Espanhola", "Acho-te uma, Graça" etc. E cabe ressaltar que sempre manteve as suas pautas ordenadas num puro sentido do ritmo brasileiro, nunca se preocupou exponencialmente com versões ou adaptações – é estritamente compositor de sambas, marchas, valsas ou choros. Como instrumentista, reconhece-se a sua flauta ponteando e contraponteando, durante longo período, dezenas e dezenas de gravações, muitas antológicas. O seu conjunto regional (além dele, Jaime Florence, Lentine ou Orondino Silva, Canhoto, e Popeye) foi pano sonoro de fundo para os maiores intérpretes: Chico Alves, Sylvio Caldas, Criando Silva, Moreira da Silva, Carmen Miranda, Carlos Galhardo, entre outros. E, amiúde, nos interregnos das vozes, subia a flauta. Existe, aliás, um importante long-playing, contendo doze faixas de gravações de há quase vinte anos, com Benedito solando. É escutar a vivência sentida do seu sopro, ao interpretar as valsas "Lêla" ou "Myrthes", ou então o virtuosismo no extraordinário "Minha Flauta de Prata", choro de Jayme Florence. E existem também as notáveis gravações que consumou em dupla com Pixinguinha (este no saxofone). "Sofre Porque Queres", "André de Sapato Novo", "Um a Zero", "Ainda me Recordo"' etc.
Qual organizador de conjuntos, o seu papel é histórico, pois o Grupo Gente do Morro, que gravava na Brunswick, Colúmbia ou Parlophon, é, sem favor algum, o mais rico que houve para as invenções harmônicas dentro do samba. Tudo o que se possa falar em breque, bossa, batuque está lá, com os contrastes os mais arrojados e sempre o ponteio vertiginoso de sua flauta. Foi, aliás, Sinhô quem assim batizou a esse grupo de "Gente do Morro", ao ouvi-los interpretando o samba "No Sarguero". E, com o grupo, Benedito não só regia e solava com a flauta: também cantava, como há no testemunho de vários discos. Num deles, peça das mais curiosas e histórica, aparece cantando em dupla com Sylvio Caldas, que então principiava a sua carreira e na Brunswick. Trata-se do Samba "A Nêga Sumiu", de autoria de Benedito. Era, pois, o criador da "Jardineira" um verdadeiro homem dos sete instrumentos nessa época: em muitos números, regendo o conjunto, cantava e interrompia a voz para solar com a flauta. O Grupo Gente do Morro deixou algumas gravações antológicas: o fabuloso "Dinheiro Não Há" ("Lá vem ela, chorando/ o que ela quer?/ pancada não é, já dei/ mulher da orgia quando começa a chorar/ quer dinheiro/ dinheiro não há"), cantado por Leonel Faria; Yolanda Osório elevando ao máximo o lirismo e amargura do morro, no samba "Chorei", de autoria de Benedito; também de sua autoria o extraordinário "Como Acabou o Meu Amor" ("Tens no semblante a maldade/ por piedade/ não me olhes assim...") , cantado pelo próprio compositor ou o ritmo admirável de outro samba seu, "Chora meu Bem", cantado por Ildefonso Norat; e uma das maiores marchas de Lamartine Babo, "Eu Quero Casar", cantada por Yolanda Osório, já transmitindo a malícia brejeira do criador de "Linda Morena", quando o Grupo, além dos virtuosismos instrumentais, apresenta um coro magnífico, respondendo ao estribilho da intérprete: "Eu quero - o quê? (bis)/ casar e o papai não deixa/ não caso - por quê? (bis)/ porque a mamãe se queixa - toda a marchinha contando o caso da moça que gosta muito de namorar, mas que, na hora de casar, "não sei porque tal pavor". Enfim, os efeitos de percussão - a contribuição mais poderosa da gente do morro - encontra resultados fantásticos no samba "Tem Aguinha", onde, inclusive, na harmonia da "barulhada", algumas pessoas chegam a identificar a presença de latas de gasolina. Vale também notar que as primeiras gravações de Moreira da Silva, antes de ter-se especializado no samba de breque, surgiram com acompanhamento do Grupo Gente do Morro: entre elas, peças notáveis, como "Vejo Lágrimas", "Arrasta a Sandália" e "É Batucada", este o samba de Caninha e do Visconde de Picohyba, que ganhou o prêmio do carnaval de 1933. Pouco tempo depois, desfez-se o grupo para logo aparecer transformado no Conjunto Regional de Benedito Lacerda, quando então, em lugar da percussão, predominavam os efeitos dos instrumentos de sopro e de corda. Esse conjunto acompanhou alguns dos grandes êxitos artísticos de Sylvio Caldas, entre eles, o clássico "Chão de Estrelas", "Arranha-Céu", "Madrugada", "Torturante Ironia" e uma das maiores valsas de Benedito Lacerda, "Boneca": "Eu vi numa vitrine de cristal/ sobre um soberbo pedestal/ uma boneca encantadora..."

* * *

Benedito Lacerda nasceu em Macaé, Estado do Rio, em 14 de março de 1903. Aos vinte anos de idade, veio para o Rio de Janeiro e, depois de ter sido soldado da Polícia Militar, passa a músico de primeira classe da Escola Militar. Para tanto, o teste consistia em executar a parte de flauta da ópera "O Guarani", de Carlos Gomes, e, sabendo de cor a partitura, foi logo aprovado. Mas, quando ocorreu a baixa do serviço militar, começou a enfrentar uma fase difícil, tocando em cinemas e teatros de variedades. Com o advento do cinema falado, a situação ainda se tornou mais árdua. Porém, logo após, principiou a se afirmar nos meios musicais e, a seguir, vieram os seus conjuntos "Gente de Morro", "Boêmios da Cidade", Regional de Benedito Lacerda e, já em 1935, ocupava posição de realce. Essa posição acentuou-se amplamente no fim de sua carreira, quando acabou como presidente da SBACEM. Faleceu em dezesseis de fevereiro de 1958, vitimado pelo câncer. Existem duas ruas com o seu nome: uma em Campo Grande, outra em sua cidade natal, Macaé.
Dado curioso: em 1933, ganhou o concurso de músicas, patrocinado pelo jornal "A Noite", mediante a composição junina, "Briguei com São João" e o prêmio foi uma flauta de prata, conservada até o fim da vida.
Compôs muito êxito da maior fase de prestígio de Orlando Silva: "Aliança partida" e "Amigo Leal", gravados com o conjunto "Boêmios da Cidade"; a valsa "Número um", de enorme sucesso: "Passaste hoje ao meu lado/ vaidosa de braço dado...": a marcha "A Jardineira", cantada até hoje no período de carnaval; e um disco que tem, numa das faces, a famosa valsa "Meu Coração a teus pés" e, noutra, um dos seus maiores sambas, "Amigo infiel": "Perdoa-me bom amigo/ teu perdão será o abrigo/ do remorso deste drama/ meu desengano eu já tive/ hoje comigo ela vive/ mas é ati que ela; ama". 

Correio da Manhã
30/12/1964

 
Vogeler: resposta do tempo
Correio da Manhã 19/11/1964

Sinhô: o rei do samba
Correio da Manhã 25/11/1964

Pixinguinha: Dos Sete Instrumentos
Correio da Manhã 02/12/1964

Ismael: o bamba do Estácio
Correio da Manhã 09/12/1964

Orestes: Poesia e Seresta
Correio da Manhã 16/12/1964

Francisco Alves: o rei da voz
Correio da Manhã 23/12/1964

Benedito Lacerda: ou A Flauta de Prata
Correio da Manhã 30/12/1964

Cândido das Neves “Índio”: seresteiro da cidade
Correio da Manhã 06/01/1965

Orlando Silva: o cantor das multidões
Correio da Manhã 13/01/1965

Noel Rosa: Poeta da Vila, do Samba, do Povo
Correio da Manhã 20/01/1965

Ernesto Nazareth: o criador do tanguinho
Correio da Manhã 27/01/1965

Carmen Miranda: "A pequena notável"
Correio da Manhã 03/02/1965

Joubert de Carvalho: o criador de "Maringá"
Correio da Manhã 10/02/1965

André Filho: da Cidade Maravilhosa
Correio da Manhã 17/02/1965

Mário Reis: Rei da bossa
Correio da Manhã 24/02/1965

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