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Sinhô: o rei do samba

A J. B. Silva (Sinhô), esta homenagem encerra também um toque afetivo, de sincera retribuição. Era 1927, dentro do concurso musical patrocinado pela nossa ampla seção, O que é Nosso, ele compôs um tango brasileiro, com o mesmo título daquela seção, dedicado ao CORREIO DA MANHÃ.

VIDA E CRIAÇÃO

Juntamente com Pixinguinha, Noel Rosa, Ismael Silva e Benedito Lacerda, José Barbosa da Silva – Sinhô – forma o quinteto dos maiores ou se não, dos mais importantes compositores de nossa música popular. Sinhô representa também, com sua obra, o salto radical de uma personalização definitiva, tomada em termos rítmicos e estilísticos, daquilo que é como gênero assim delimitado, a expressão permanente dos nossos ritmos populares: o samba. Do maxixe ao samba, essa transformação e, ao mesmo tempo, esse escoimar final de todos os resíduos de formas musicais alienígenas, traduzem a atuação criativa de um grupo, do qual era ele o representante máximo, e onde pontificavam com a sua contribuição outros nomes respeitáveis: Caninha (José Luis de Moraes), Donga (Ernesto dos Santos), José Francisco de Freitas, Heitor dos Prazeres. E, assim, não foi por menos: Sinhô era cognominado o rei do samba.
Nasceu José Barbosa da Silva em 18 de setembro de 1888, na Rua do Riachuelo. Desde a infância, já conhecia aquele que era tido como o seu grande rival – Caninha. E, aos 14 anos, conheceu Pixinguinha, quando, então, morava na Rua Senador Pompeu. O instrumento de Sinhô era o piano e sempre se reconhecerá a influência do teclado na concepção de suas composições, com um fraseado rápido e o sincopado bastante peculiar. Foi com essas credenciais que fazia parte do grupo que frequentava a casa da famosa baiana, Tia Ciata, onde também pontificavam Pixinguinha, Donga, Caninha e João da Bahiana. Resultado dos serões em Tia Ciata: muito ritmo, invenções, macumba e, em 1916, aquela música que viria a ser a primeira a ter a qualificação de samba num selo de disco: "Pelo Telefone", autoria de Donga, letra de Mauro de Almeida, embora o próprio Sinhô, em polêmica, reivindicasse a paternidade da obra, Em 26 de janeiro de 1918, organizou o grupo instrumental "Quem São Eles?" e passou a desafiar os seus rivais no samba. Um ano depois, além de "Três Macacos no Beco", gozação a Pixinguinha, o irmão deste, China, e Donga, produziu o primeiro dos seus sambas que é relativamente popular até hoje, "Fala meu Louro", sátira a Rui Barbosa "Papagaio louro do bico dourado". No mesmo ano, outra "homenagem" a China, "Pé de Anjo", além de "Vou me Benzer". O ano de 1921 ainda era mais movimentado de sua carreira: no mês de julho, estreava no Teatro Recreio uma revista de sua autoria em parceria com Procópio Ferreira, "Segundo Clichê"; em outubro, por causa do samba, "Fala Baixo", satira à situação política do governo Bernardes, foi perseguido pela polícia, havendo sido obrigado a se esconder na casa de sua mãe, no Engenho de Dentro. Nos anos subsequentes continuou fartamente as atividades de compositor, até chegarmos a 1927, um grande ano, pois é o momento em que lança alguns dos seus majores êxitos criativos "Ora Vejam Só", "Amar a uma só mulher", "Cassino Maxixe" (samba que, melodicamente, se consiste numa combinação do próprio "Ora Vejam Só" e do famosíssimo "Gosto que me Enrosco"), "Não Quero Saber mais Dela" e "A Favela Vai Abaixo" (motivado no projeto do urbanista francês, Agache, de derrubar o morro da Favela), Todos esses sambas foram gravados na Odeon, em 1927, por Francisco Alves, sendo que "Não Quero Saber mais Dela" constitui um saboroso dueto com Rosa Negra, quando Chico Alves imita o sotaque de português, em diálogo com a clássica partner, a mulata ("Eu bem sei que tu és donzela/ mas isto é uma coisa à toa mulata, lá na favela/ mora muita gente boa..."). "Cassino Maxixe" tem, na sua primeira parte, a linha melódica do futuro "Gosto Que me Enrosco", mas a letra, em vez do consagrado, "Não se deve amar sem ser amado/ é melhor morrer crucificado"..., começava assim: "A maçã melhor é a proibida/ e entre Adão e Eva é repartida/ ela morde tal fruto saboroso/ e oferece ao homem que o aceita pressuroso". No final, é a idêntica euforia compassada do "Ora Vejam Só", mas também com palavras diversas: "Quem a come encontra tal sabor/ que quanto mais come mais depressa é a fome". Mas nenhum desses sambas possui letra tão instigante quanto o primitivismo de "Amar a uma Só Mulher", onde se acham pitadas do assim chamado mau gosto genial de alguns sambistas, quando, amiúde, ingressam mesmo no terreno da poesia pura. Eis um exemplo, com o estribilho:

quem inventou o amor foi um ceguinho
mas não disse a cor que ele tem
penso que só Deus dizer nos vem
ensinando com carinho
a pura cor do querer bem

A pura cor do querer bem, ingênuo touchstone em oito sílabas, cantado, quase gritado pelo rei da voz, em luta com a orquestra Pan-American do Cassino Copacabana, fabulosa. "Amar a uma só Mulher" foi composto em 27 e 28 e, no; mesmo período, sempre ainda com Francisco Alves, cantando, surge a linha melódica bem sugestiva de "Eu Ouço Falar...", dedicado à campanha de Julio Prestes (seu Julinhô) para presidente da República: "Eu ouço falar/ que para nosso bem/ Jesus já designou/ que seu Julinho é quem vem". Aliás, em 1929, Sinhô, os sambistas e o tema do Seu Julinho foram parar no Teatro Municipal, o que motivou até critica do "Estado de São Paulo", condenando o fato de ter estado aquela tradicional casa de espetaculos sérios "sob o domínio da fuzarca".

APOGEU E MORTE

Mas, voltando atrás, se 1927 foi um grande ano, 1928 foi o ano-base, para Sinhô e para o samba: Mário Reis, então desconhecido, vai à sua casa, a fim de tomar aulas de violão. Resultado: no estilo brejeiro, informal, criativo, daquele jovem, o rei do samba descobre o intérprete ideal para as suas músicas. Daí, para a cera, foi um salto: o primeiro disco de Mário Reis são duas músicas de Sinhô, com o próprio compositor e Donga acompanhando o cantor aos violões: o romance "Carinhos e Vovô" e o clássico "De que Vale a Nota sem o Carinho da Mulher" ("Amor, amor, não é para quem quer/ de que vale a nota meu bem/ sem o puro carinho da mulher/ quando ela quer"). O 2° disco apresenta ainda os dois compositores ao violão, acompanhando o cantor em mais duas de Sinhô: "Sabiá" e o notável "Deus nos livre do Castigo das Mulheres". E a terceira gravação já traduz a consagração de Sinhô e de Mário Reis: numa face, o já mencionado "Gosto que me Enrosco", na outra, o imortal "Jura" (Daí então, dar-te-ei o beijo puro na catedral do amor"). Daí em diante, Mário Reis prosseguiu em sua carreira e ainda, posteriormente, gravaria mais quatro sambas de Sinhô: "Carga de Burro" (Tu serás burro de carga/ e a mulher, carga de burro"), tendo na face oposta um belo samba de Heitor dos Prazeres, "Vai Mesmo"; "Já é Demais" e, em cada face de outra gravação da Odeon, "A Medida do Senhor do Bonfim" e "Cansei" (este, exigindo do intérprete um frasear acrobático, o último samba do compositor levado à cera). Muitos anos depois, num de seus reaparecimentos fugazes, Mário Reis gravaria, na Continental, um álbum com criações de J. B. da Silva. Em 4 de agosto de 1930, já tísico, "o rei do samba" morre com uma hemoptise fulminante, numa barca em trânsito entre a ilha do Governador e o cais Pharoux. No dia seguinte, na terceira página de sua edição, em coluna quase de alto a baixo e com retrato do falecido, o CORREIO DA MANHÃ, noticiava a morte e sua repercussão, com título "Morreu o Rei do Samba". No mesmo dia era o enterro no cemitério do Caju, precedido de velório que marcou época, especialmente pelo colorido que lhe conferiu uma cronica de Manuel Bandeira. Transcrevemos um trecho: "A capelinha branca era muito exígua para conter todos quantos queriam bem a Sinhô, tudo gente simples, malandros, soldados, marinheiros, donas de rendez-vous baratos, meretrizes, choferes, macumbeiros (lá estava o velho Oxunã da Praça Onze, um preto de dois metros de altura com uma belida no olho), todos os sambistas de fama, os pretinhos dos choros dos botequins das ruas Júlio do Carmo e Benedito Hipólito, mulheres dos morros, baianas de tabuleiro, vendedores de modinhas... Essa gente não se veste toda de preto. O gosto pela cor persiste, mesmo na hora do enterro. Há prostitutazinhas em tecido opala vermelho. Aquele preto, famanaz do pinho, traja uma fatiota clara absolutamente incrível. As flores estão num botequim em frente, prolongamento da câmara ardente. Bebe-se desbragadamente. Um vaivém incessante da capela para o botequim". Isto foi publicado da coletânea de 1937, "Crônicas da Província do Brasil".

OBRA E REPERCUSSÃO

Quando Sinhô morre, a fase de ouro do samba, que praticamente se iniciara há bem mais de um decênio na Rua Visconde de ltaúna, n° 117, casa de Tia Ciata, já estava em pleno circuito: Noel vivia e tabulava a saga do carioca, Ismael Silva e Nilton Bastos já traziam do Estácio uma contribuição das mais respeitáveis, Benedito Lacerda organizava o Grupo Gente do Morro, Pixinguinha e seus Oito Batutas, interna e internacionalmente, glorificavam o samba, e o carnaval, ao contrário de hoje, era uma fábrica de ritmos, letras, coros e melodias, sempre novas, sempre diferentes. E se formos lembrar o derradeiro samba de Sinhô, que ficou extraviado, "O Homem da lnjeção", baseado na notícia de um crime, cabe ressaltar outro aspecto de sua contribuição: o samba como perenização da noticia. A notícia, o acontecimento, a realidade contingente, enfim, traduziam o seu grande foco de inspiração: crimes, política e políticos, planos urbanísticos, a moda, a religião, a macumba, a mulher, os costumes – é o panorama de uma época montado musicalmente, comentado ao sabor da sátira ou ao rictus da dor de cotovelo – do lirismo à chalaça, é quase tudo notícia. A polêmica, a propaganda – "para o riso ser leal no coração da humanidade", um dos objetivos pelo qual Jesus designou a vinda do Seu Julinho.

Sinhô - composições:
Canção Roceira, Demo-Demo!, Sempre Voando, O Que é Nosso, Minha Paixão, Leonor, Macumba Gegê, Meus Ciúmes (gravado na Brunswick pela voz original de Yolanda Ozório), Golpe Feliz, Ave de Rapina, Tesourinha, Sai da Raia, Pé de Pilão, Sonho de Gaúcho, Sete Coroas, Fala meu Louro, Três Macacos no Bêco, Vou me Benzer, Pé de Anjo, Fala Baixo, Cabeça de Promessa, Já-Já, Caneca de Couro, Dor de Cabeça, Corta a Sala, Amor sem Dinheiro, Papagaio no Poleiro, Deixe dêste Costume, Quando Come se Lambusa, Cabeça Inchada, De Bôca em Bôca. Viruta y Chimarrón, Câmbio a Zero, Black Time, Môsca Vareja, Vida Apertada, Tirando Retrato, Falando Sozinho, Kananga do Japão (ressuscitado pela orquestra de Altamiro Carrilho), Alivia estes Olhos, Os Esponjas, Ai Vê Dendê. Nas gravações de Chico Alves: A Favela Vai Abaixo, Cassino Maxixe, Ora Vejam Só (duas versões), Não Quero Saber mais Dela, O Bobalhão, Eu Ouço Falar..., Amar a uma Só Mulher, Sonho de Gaúcho, Alegrias de Caboclo, Não Sou Babú. Breakaway e That's You Baby (estes dois últimos, possivelmente versões ou então a moda do fox-trot). Nas gravações de Mário Reis: De que Vale a Nota Sem o Carinho da Mulher (regravado há pouco para um elepê de MR). Carinhos de Vovô, Sabiá, Deus Nos Livre do Castigo das Mulheres (regravado para o mesmo elepê). Jura, Gosto que me Enrosco, Carga de Burro, A Medida do Senhor do Bonfim, Cansei, e Já é Demais. Posteriormente, no album da Continental, Mário Reis regravou os seguintes: Jura, Ora Vejam Só, A Favela Vai Abaixo, Sabiá, Gosto que me Enrosco e Fala Meu Louro.

Correio da Manhã
25/11/1964

 
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Correio da Manhã 19/11/1964

Sinhô: o rei do samba
Correio da Manhã 25/11/1964

Pixinguinha: Dos Sete Instrumentos
Correio da Manhã 02/12/1964

Ismael: o bamba do Estácio
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