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Mário Reis: Rei da bossa

Sob o ângulo da interpretação vocal, existe a música popular antes de Mário Reis e música popular depois de Mário Reis. É o suficiente para atestar a grandeza de um cantor, na amplitude de sua influência no método original de entoar, de frasear, de valorizar o ritmo. Um divisor de águas radical. De um lado, a utilização melhor ou pior dos recursos do bel-canto para interpretar o samba; de outro, Mário Reis, a intenção, a improvisação, a espontaneidade, a maleabilidade - Mário Reis e todas as suas consequências. Havia também, por exemplo, um Francisco Alves antes de Mário Reis e um Francisco Alves depois de Mário Reis. Já é dizer muito. Dele, até João Gilberto, é só uma elipse direta, sob cujo arco brilharam alguns nomes respeitáveis, mas de menor importância.
Tudo começou quando aquele rapaz, estudante de Direito, na Faculdade à Rua do Catete, recebeu Sinhô em sua casa a fim de tomar aulas de violão. Ao ouvi-lo cantar, Sinhô, com o seu olho clínico de grande compositor, descobre o intérprete ideal para as suas músicas. Mas não seria só para elas - seria também para todo o cancioneiro popular. Uma voz de timbre e inflexões quase feminis, com extrema versatilidade no silabar, usando magnificamente o recurso das pausas, que traduzem um precioso elemento incorporado ao jogo de relações das virtualidades de um texto sonoro-semântico. A história da música popular passaria a ser contada de modo diferente.

* * *

Mário da Silveira Reis nasceu no Rio Comprido, à Rua Sampaio Viana, em 31 de dezembro de 1907. Dois anos depois, transferia-se a sua família para a Tijuca, onde Mário residiria durante longo tempo. Estudou no Instituto Lafayete e também jogava no time juvenil do América. Mais tarde começa a dedicar-se às serenatas - hábito daquela nova geração dos
twenties cariocas, enquanto Lentine era o primeiro a lhe ensinar a dedilhar o violão, o mesmo Lentine que, anos mais tarde, faria parte do famoso conjunto de Benedito Lacerda. Em 1926, entra para a Faculdade de Direito do Rio do Janeiro, da Rua do Catete, e, também nesse ano dá-se o encontro histórico e importante com já famoso J. B. da Silva, Sinhô. Este aceita ministrar-lhe aulas de violão, mas, quando ouve Mário Reis cantando seus sambas, fica assombrado: era, com um estilo inteiramente novo de interpretação, o cantor ideal para eles. Cerca de dois anos mais tarde, Mário acede e resolve gravar na Odeon duas composições de Sinhô, acompanhado pelos violões deste último e de outro grande sambista, Ernesto dos Santos - Donga - o criador de "Pelo Telefone" (samba do qual Sinhô também dizia-se autor). As composições eram o romance "Carinhos de Vovô" e o notável "De Que Vale a Nota Sem o Carinho da" Mulher": "Amor, amor"/ não é para quem quer/ de que vale a nota meu bem/ sem o puro carinho da mulher/ quando ela quer/ Por isso mesmo que às vezes numa orgia/ um terno riso eu peço emprestado/ e faço o palhaço na vida meu bem/ com o meu coração magoado". Trinta e sete anos depois, é só recolocar o velho disco a circular no prato para constatar a tremenda atualidade dessa gravação. Mas não se perde por mais ainda esperar. A segunda gravação de Mário Reis, continuando a cantar Sinhô e ainda com este e Donga acompanhando-o, foi o conhecido "Sabiá" ("Sabiá, sabiá, cantou na mata/ e anunciou fiu, fiu/ no melhor de minha vida/ meu amor fugiu") e o antológico "Deus Nos Livre do Castigo das Mulheres", uma interpretação fabulosa e uma composição a respeito da qual Ary Vasconcellos, no "Panorama da Música Popular Brasileira", chega a identificar Sinhô com o temperamento dos trovadores medievais, em seu espiritualismo que diviniza a mulher: "Deus criador; fez da mulher o seu divino resplendor/ só por ser a parte fraca/ deu-lhe o poder de convencer/ este sexo mau que deve padecer/ e sofrer/ pela razão de se julgar superior/ quando conseguem/ preso o amor/ fazem do mesmo uma peteca!/ sem ser/ só pra ver a mulher padecer", seguindo-se logo um dos grandes touchstones de Sinhô: "Mas o amor é uma prece/ que o homem desconhece/ só procura conhecer/ quando mesmo mal vem a sofrer". E a mesma atualidade, 37 anos depois, atribuída à gravação original de "De Que Vale a Nota Sem o Carinho da Mulher" pode ser estendida ainda com maior vigor, àquela de "Deus Nos Livre do Castigo das Mulheres". Contudo, foi no terceiro disco, ainda cantando exclusivamente músicas de Sinhô, que Mário conheceria o grande sucesso e começaria a bater recordes de vendagem de discos: de um lado, um dos clássicos do samba, "Jura" ("Jura/ jura/ jura/ pelo Sinhô/ jura/ jura/ jura/ pela imagem/ da santa cruz/ do redentor/ prá ter valor a tua Jura/ jura/ jura/ jura/ de coração/ para que um dia eu possa dar-te o amor/ sem mais pensar na ilusão", seguindo-se, então, um dos momentos-chave do chamado "mau gosto genial": "Dai então/ dar-te eu irei/ o beijo puro na catedral do amor”); do outro, o não menos consagrado "Gosto que me Enrosco", com toda a sátira e humor brejeiro, em contraposição à melancolia de "Jura", com a voz do cantor já ensinando de vez como ouvir e cantar o samba: "Gosto que me enrosco de ouvir dizer/ que a parte mais fraca é a mulher/ pois o homem com toda fortaleza/ desce da nobreza/ e faz o que ela quer".
O quarto disco de Mário Reis, não sendo de Sinhô, serviu para demonstrar que o novo estilo do intérprete era abrangente, totalizante, não se adaptava tão-somente às músicas do rei do samba. Sua quarta gravação é, simultaneamente, notável e histórica. Notável porque, de um lado, canta um dos maiores números do seu riquíssimo repertório, um samba de Alfredo Dermeval, hoje injustamente relegado ao esquecimento, mas que, nem por isso, deixa de ser um dos melhores sambas já feitos, caindo como uma luva na garganta do cantor. Trata-se de "Margô": "Por Deus eu juro / é de saudade que eu choro / daquele tempo que vivia só de amor / hoje trabalho tenho tudo onde moro / mas da mulher eu tenho mágoa / eu tenho dor”, trazendo um refrão melodicamente tão insinuante: "Vem, benzinho / de nota eu ando mal / mas cheio de carinho...". E, na segunda parte da letra, temos aquele trecho que traduz uma filosofia pessoal do amor: "Eu sou do amor / eu sei chorar / eu sou manhoso / mesmo sem nota / que tem carinho é gostoso", com Mário Reis, em favor do ritmo, modificando a acentuação da palavra carinho. A outra face desse disco marca um instante histórico. Constitui a primeira música de Ary Barroso a ser registrada na cena, valorizar na voz de uma fabuloso intérprete: ”Vou à Penha": "Vou, à Penha / vou pedir vou implorar / para a santa me ajudar". A quinta gravação tem, numa face, um samba de Caninha, "Vou me Vingar", e, na outra, um grande êxito, há alguns anos restaurado pela bandinha de Altamiro Carrilho: "Dorinha Meu Amor", de José Francisco de Freitas: "Dorinha, meu amor / você me faz chorar / e eu sou um sofredor / e sofro só por te amar". A sexta gravação apresenta "Vadiagem", composição onde consta, no selo, o nome de Chico Alves e o belo "Sorriso Falso", de autoria de Cícero de Almeida, o "Baiano". "Sorriso Falso" é daqueles sambas onde o intérprete melhor sabe mesclar o tom ligeiro, brejeiro, do silabar exterior, com a funda melancolia do sentimento, isto bem caracterizado no trecho final: "A vida é sempre assim ó minha flor / a mulher não sabe o que é o amor / se ela soubesse daria o valor / a este pobre cantor", voltando o refrão-contraponto do sonoro-semântico: "O amor é um bichinho que rói / que entra no peito e não dói". A sétima gravação é, de um lado, um bonito samba, "Perdão", assinado também Francisco Alves, e um samba do lanterneiro do automóvel de Mário Reis, Orlando Vieira, "Meu Amor Vou te Deixar". O oitavo disco marca outro encontro histórico, dessa vez com a dupla Ismael Silva & Nilton Bastos. Deste último, canta "O Destino é Deus Quem Dá". De Ismael, canta um de seus sambas mais conhecidos, "Novo Amor": "Arranjaste um novo amor meu bem / eu sou um infeliz bem sei / mas inda tenho fé / que hei de te ver chorar / quando souberes amar / como eu amei". Na nona gravação interpreta Heitor dos Prazeres, "Vai Mesmo", e volta a Sinhô, com "Carga de Burro", contendo aquele aforisma que foi dado por um breque da Bahia, num candomblé que se rezava todo dia: "tu serás burro de carga e a mulher carga do burro". Na décima vez, canta um bonito samba de Vogeler, "É Tão Bonitinha" e ajuda consagrar Ary Barosso, cantando uma das melhores composições do autor de "Três Lágrimas". Trata-se de "Vamos Deixar de Intimidade", onde Ary, então, também sabia fazer a sua filosofia popular: "Um amor que a gente perde / é semente de outro amor / se prá tudo tem remédio / também tem remédio a dor / mas o meu santo / que me guarda é muito forte / se me livrou dos teus olhos / também me livra da morte", onde Mário faz novamente variar a acentuação na conjugação do verbo livrar a serviço da melhor intensidade rítmica.
A 11ª gravação é um novo retorno integral à Sinhô: "A Medida do Senhor do Bonfim" e "Cansei", sendo este último também a última composição do grande sambista a ser publicada e, ao mesmo tempo, uma das ainda maiores interpretações vocais de Mário Reis. É só lembrar os matizes que empresta no seu dizer corrido da longa frase: "pois eu não vim ao mundo com o fito apenas de eterno sofrer". Findava 1929 e entrava-se em 1930. O sucesso já era a consagração. Já fazia ele parte das rodas famosas do samba e da boêmia, frequentava a Casa Edison. Chico Alves convida-o para cantar em dupla. É uma nova fase das mais ricas, quando o novo estilo de Mário entrosa-se num contraste funcional e criativo com o insuperável cantabile de Chico, de voz também, naquele tempo, insuperável, em matéria de vigor e beleza - sem falar que o veterano já começava a se utilizar da malícia e do breque do mais novato. A primeira gravação da dupla é o conhecido "Deixa Essa Mulher Chorar", de Brancura, e o notável "Quá Quá Quá", de Laura dos Santos: "Ri quá quá quá / oi desse alguém que tanto chora / desse alguém que hoje chora por mim". Depois, temos quatro gravações, consagrando de vez a dupla de cantores e o talento da dupla de compositores do Estácio, Ismael Silva & Nilton Bastos: "Não Há", "Se Você Jurar", "O Que Será de Mim" e "Arrependido", este último, talvez, a maior interpretação do duo Chico-Mário. A seguir, lançam outro excelente samba de Laura dos Santos: "Nem Assim": "Ah, minha vida / ó tenha pena de mim / deixei a maldita malandragem / para ver se endireitava / mas, nem assim".
Mário Reis, sozinho ou em dupla com Francisco Alves, gravou composições de Noel Rosa: "Uma Jura que Fiz" (também de Ismael), "Mulato Bamba", "Estamos Esperando", "Todo que Você Diz", "A Razão Dá-se a Quem Tem" (com Ismael) "Mas como... Outra Vez?", "Fita Amarela", "Vai Haver Barulho no Chatô", "Filosofia", "Vejo Amanhecer".
Em 1933, Mário Reis vai para a Victor. A sua primeira gravação nesta companhia feita em dupla com Lamartine Babo, ambas as músicas também de Lamartine, em parceria com Paulo Valença: "Aí, Hein?" e "Boa Bola", São daqueles sambas do estilo Lamartine, sacudidos na base do humor e da farsa. Foram, logo de saída, dois enormes sucessos.
Após, ainda na faixa de Lamartine, dois dos maiores hits na carreira do cantor: a marcha "Linda Morena" e o samba "A Tua Vida É um Segredo". O ano seguinte é aquele do imergir de um dos maiores sambas de carnaval e um dos maiores sambas de todos os tempos, "Agora É Cinza", da dupla Bidê-Marçal, numa interpretação fascinante do grande cantor, com os Diabos do Céu e coro: "Você partiu / saudades me deixou / eu chorei / o nosso amor foi uma chama / que o sopro do passado desfaz / agora é cinza / tudo acabado / e nada mais / Você partiu de madrugada / e não me disse nada / isso, isso não se faz / me deixou cheio de saudade e de paixão / não me conformo com a tua ingratidão". Depois, até 1936, prosseguiu a série de êxitos - muitos deles, até hoje cantados, relembrados. Mário Reis marcou muitos carnavais e pontificava nos discos, nas estações de rádio, além de ter aparecido no cinema. Finalmente, para de cantar em público durante três anos. Reaparece em 1939, no Teatro Municipal, no espetáculo "Joujoux e Balangandãs". Ao mesmo tempo, volta a gravar na Columbia três discos, entre eles a famosa marcha de Ary Barroso, "láiá Boneca".
Quando todos julgavam que o intérprete "voltara a cantar" como se intitula um dos seus sambas de reaparecimento, desaparece outra vez do cenário. Só retorna cerca de dez anos depois, para gravar um álbum na Continental, compreendendo seis músicas de Sinhô: "Jura", "Sabiá", "Fala Meu Louro", “Gosto Que Me Enrosco", "A Favela Vai Abaixo" e "Ora Vejam Só". No ano seguinte gravou mais um disco "Flor Tropical" marcha de Ary Barroso, e "Saudade do Samba", samba de Fernando Lobo e Paulo Soledade - e depois, novamente, abandonou a carreira. Em 1960, acede, enfim, em gravar um long-playing, contendo antigos sucessos e duas composições de Antônio Carlos Jobim, uma delas de parceria com Vinicius de Morais. Foi uma prova da maturidade do artista. A voz, envelhecida, mais grave, denotava contudo toda aquela versatilidade de outrora. Conseguiu repetir o tour de force que fazia nos sambas de Sinhô, "Deus Nos Livre do Castigo das Mulheres" e "De que Vale a Nota sem o Carinho da Mulher". Conseguiu cantar o "Vamos Deixar de Intimidade", de Ary Barroso, melhor ainda do que o fizera há mais de trinta anos. Mostrou, na reedição de "Mulato Bamba" ser além do próprio Noel, também o melhor intérprete de Noel. Com "Palavra Doce" e "Vai-te Embora" soube demonstrar que a sua noção criativa do ritmo continuava intacta. E adaptou-se muito bem ao mood de Jobim. Afinal Mário Reis constitui uma das raízes diretas da Bossa Nova, sabe como ninguém valorizar o trivial, o prosaico, o coloquial. Este seu long playing é das mentores coisas que produziram em lenta rotação para a nossa música popular.

Correio da Manhã
24/02/1965

 
Vogeler: resposta do tempo
Correio da Manhã 19/11/1964

Sinhô: o rei do samba
Correio da Manhã 25/11/1964

Pixinguinha: Dos Sete Instrumentos
Correio da Manhã 02/12/1964

Ismael: o bamba do Estácio
Correio da Manhã 09/12/1964

Orestes: Poesia e Seresta
Correio da Manhã 16/12/1964

Francisco Alves: o rei da voz
Correio da Manhã 23/12/1964

Benedito Lacerda: ou A Flauta de Prata
Correio da Manhã 30/12/1964

Cândido das Neves “Índio”: seresteiro da cidade
Correio da Manhã 06/01/1965

Orlando Silva: o cantor das multidões
Correio da Manhã 13/01/1965

Noel Rosa: Poeta da Vila, do Samba, do Povo
Correio da Manhã 20/01/1965

Ernesto Nazareth: o criador do tanguinho
Correio da Manhã 27/01/1965

Carmen Miranda: "A pequena notável"
Correio da Manhã 03/02/1965

Joubert de Carvalho: o criador de "Maringá"
Correio da Manhã 10/02/1965

André Filho: da Cidade Maravilhosa
Correio da Manhã 17/02/1965

Mário Reis: Rei da bossa
Correio da Manhã 24/02/1965

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