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Cândido das Neves “Índio”: seresteiro da cidade

Na vertente das serestas, o nome de Cândido das Neves "Índio", junto com o de Orestes Barbosa, é dos mais populares. Foi um compositor que se impôs nesse apelo do derrame romântico das velhas madrugadas. Estão sempre na ponta da língua as infindáveis letras de algumas de suas páginas mais célebres.
Cândido das Neves é filho do cantor e palhaço Eduardo das Neves, este também não menos conhecido em nosso cancioneiro popular. Desde os fins do século passado e nos dois primeiros decênios deste o assim chamado "palhaço negro" aparecia como cantor, poeta e compositor, com diversos livros publicados, entre eles "O Cantor de Modinhas", "O Trovador da Malandragem" e "Mistérios do Violão". Eduardo das Neves brilhou na criação de modinhas que já denotavam o "olho jornalístico" da música popular, isto é, modinhas que comentavam vários, assuntos em foco ou fatos do momento: a guerra dos Canudos, o 5 de novembro; Santos Dumont, com o famoso "A Europa curvou-se ante o Brasil", aumento de passagens ou questões de política internacional. Foi dos primeiros, como cantor, a gravar nos discos da Casa Edison, a partir de 1902, com "A Gargalhada" e, daí por diante, até a sua morte em 1919: "Perdão Emilia", “Preto Forro", "Os Reclamantes & a Reforma", "Vem cá, Morena", "O Mendigo" etc.
Ao morrer, deixara quatro filhos e, um deles, Cândido, nascido a 24 de julho de 1899, viria ainda a levar mais longe a tradição musical e letrista da família. Não chegou a ser oficialmente um cantor como o pai, pois nunca adotou o rádio, nem gravou qualquer disco. Mas traduzia como poucos, mediante aquele típico primitivismo ingênuo e preciosístico, o espírito sentimental e romântico da gente simples do povo. Desde a infância, demonstrava bossa para o violão – o violão que é elemento imprescindível no acompanhamento de todas as suas maiores ou mais famosas composições. A partir de 1920, começou a participar do carnaval e a compor: uma de suas primeiras músicas, fora da vertente que perpetuou o seu nome, era a marchinha "Mulata". Era mestre de harmonia do rancho "O Prazer das Morenas". Depois, concentrou-se em suas valsas, serestas ou tangos, a par de suas funções na Estrada de Ferro Central do Brasil. O "Índio" que, na verdade, era bem preto, raramente apresentava parceiros em suas melodias. Um dos poucos, foi Pixinguinha, que valorizou com sua música o conhecido "Página de Dor", gravado por Orlando Silva, ou então, muito provavelmente também, um dos clássicos da seresta, na letra do "Índio"' e na voz fabulosa do mesmo Orlando Silva, então no início de sua carreira: "Apoteose do Amor" ("Deus, oh Deus,/ sabe que os olhos teus/ são para mim dois faróis/ clareando o mar na fúria do mar/ onde naufraga uma barca que o leme perdeu/ Coitada, essa barca sou eu/ a naufragar na existência que é o mar/ socorre-me com a luz desses faróis/ que são teus olhos azuis"): disco Victor n° 34.047, de 1936. Acontece, porém, que a maioria maciça das composições de Cândido das Neves não foi gravada por Orlando Silva e, sim, por Vicente Celestino. Além de "Página de Dor" e de "Apoteose do Amor", o cantor das multidões levou à cera apenas mais duas criações do "Índio", aliás também clássicas no gênero: "Lágrimas" e Última Estrofe", ambas em 1935, num só disco da maior importância, sob a etiqueta Victor n° 33.975. Trata-se de uma das maiores raridades perseguidas pelos colecionadores e que, há mais de dez anos, quando aparecia, era vendido nos "sebos" especializados por mais de mil cruzeiros. Depois, a matriz original de "Última Estrofe" foi relançada num
long-playing de dez polegadas, intitulado "O Cantor das Multidões". A de "Lágrimas" não sabemos se permanece em bom estado, mas cabe lembrar que o próprio Orlando Silva, em 1912, regravou na própria Victor esta composição, sob o n° 34.881. A sua voz, então, apesar das concessões de alguns arroubos vocais antifuncionais, ainda mantinha a grande pureza que o caracterizara como um dos nossos maiores intérpretes.
Mas Cândido das Neves não chegou a tomar conhecimento das gravações fabulosas de Orlando Silva, que ajudaram a imortalizar algumas de suas páginas: a 14 de novembro de 1934 falecia e era enterrado no cemitério de lnhaúma.

* * *

"Mau gosto genial", barroquismo caótico, primitivismo rococó, preciosismo ingênuo, qualquer definição poderá servir ao embalo proporcionado pelos versos de Cândido das Neves, mas a verdade é que, às vezes, tangeu ou mesmo penetrou furiosamente pela poesia a dentro. A mais famosa de suas composições é "Última Estrofe" ("A Noite estava assim enluarada/ quando a voz já bem cansada/ eu, ouvi do trovador/ nos versos que vibravam de harmonia/ ele em lágrimas dizia/ da saudade de um amor"), não especialmente ou só pela letra, mas, principalmente, pela força melódica que tornou inesquecível o estribilho: "Lua, vinha perto a madrugada/ quando em ânsias minha amada/ em meus braços desmaiou/ e o beijo do pecado/ o seu véu estrelejado/ a luzir glorificou/ Lua, hoje eu vivo sem carinho/ ao relento tão sozinho/ na esperança mais atroz/ de que cantando: em noite linda/ esta ingrata volte ainda/ escutando a minha voz". A "Última Estrofe" teve cinco gravações: a primeira, na voz de Castro Barbosa; a segunda, na de Orlando Silva, já comentada; a terceira, com Vicente Celestino, que se abriu em seus arroubos vocais, de tal forma estendendo as notas, que o disco não comportou a segunda parte da letra ("A estrofe, derradeira, merencória/ revelava toda história..."); a quarta, com Nelson Gonçalves e o notável conjunto regional de Benedito Lacerda, uma excelente gravação, na época em que este cantor permanecia sob a influência direta do mood de Orlando Silva; a quinta, bem mais recente, é de Sylvio Caldas, num long-playing, quando interpreta essa página com a sua proverbial classe.
As letras do Índio são, geralmente mananciosas: raras as composições que possuam menos de 24 versos. Em "Apoteose do Amor", do delírio do preciosismo, de uma inocência pitoresca - "São dois lírios/ os teus seios alabastrinos/ quase divinos...". - ingressamos, no poético: autêntico; de pureza primitiva: "rosa, opulenta/ que o meu jardim ostenta" - nem tanto a rima rica, mas a perfeita adequação do verbo ao adjetivo, quando a imponência consagra a distorção grandiloquente: ostentar a opulência; e o particular, a rosa, domina o geral, o jardim. "Lágrimas" constitui uma recorrência do tema poético do rir chorando: "Rir é quase iludir/ é querer forçar/ o próprio coração a gargalhar/ quando ele está solitário na dor/ a soluçar de amor". Em "Cabocla Serrana"' ressurge o lirismo ingênuo e bucólico: "Ter nos lábios teus o aroma etéreo du cacheias/ teus seios afagar como a um casal de pombas-rôlas/ e a ver cantar, pelas manhãs/ solenizando o nosso amor/ os sabiás nos coqueirais em flor". Já, as aberrações imagísticas, proliferam em outras peças: "eu ontem rasguei o teu retrato/ ajoelhado aos pés de outra mulher" - "Rasguei o teu Retrato"; "Dentro de minh'alma/ que se aflige/ há uma esfinge/ emoldurando muitas pragas" - "Cinzas". Do melodrama ao calvário de Cristo, do lirismo ao culto da natureza, do mau gosto aos achados valiosos, oscilam as letras - e as serestas de Cândido das Neves. Não foi esquecido, ou melhor, seu nome talvez seja lembrado por pouco, mas, suas composições (o que é importante) permanecem na memória de muitos, enquadrando aqueles três elementos básicos da triangulação do seresteiro: lua, mulher e violão: "Lua, manda a tua luz prateada/ despertar a minha amada…” - "Noite Cheia de Estrelas".

Correio da Manhã
06/01/1965

 
Vogeler: resposta do tempo
Correio da Manhã 19/11/1964

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Benedito Lacerda: ou A Flauta de Prata
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