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Ismael: o bamba do Estácio

Sinhô-Noel-lsmael, pode-se dizer, o trio básico de sambistas puros que brilhou na fase de ouro de nossa música popular. A importância de Ismael Silva reside menos nas inovações rítmicas ou instrumentais, do que no poderoso veio de invenções melódicas que fez escorrer, e na tradição das escolas de samba que foi, juntamente com seu companheiro Nilton Bastos, um dos primeiros a criar. Os lançadores da escola de samba do Estácio, "Deixa Falar", deram muito em que falar, através de suas melodias e ritmos cantados por alguns dos nossos maiores intérpretes, em especial, Francisco Alves, que, inclusive, comprava seus sambas e os colocava melhor em circulação.

* * *

Ismael Silva nasceu em Niterói, a 14 de setembro de 1905, mas já aos três anos de idade, mudava-se para o Rio de Janeiro. Aos quinze anos, compunha seu primeiro samba, "Já Desisti". Morou no Estácio, depois no Catumbi, quando desenvolveu as suas atividades de compositor e ritmista, retomando após para o mesmo Estácio. Em 1928, a data histórica: fundação da "Deixa Falar", que saiu em desfile no carnaval do ano seguinte. Antes já havia tido o primeiro cantato com Francisco Alves. Ismael estava doente num hospital, quando, por intermédio de Alcebiades Barcellos, que o foi procurar, vendeu a Chico Alves o fabuloso samba, "Me Faz Carinhos" ("Mulher, tu não me faz carinho/ teu prazer é o de me ver aborrecido/ ora, vá mulher se estás contrariada/ tu não és obrigada/ a viver comigo/ Se eu fosse homem branco/ ou por outra mulatinho/ talvez tivesse a sorte/ de gozar o teu carinho..."), gravação preciosa e rara da Odeon, sob o selo 10.100, onde, além de Chico Alves, a orquestra Panamericana do Cassino Copacabana dá um verdadeiro show de euforia instrumental. "Me Faz-Carinhos" custou 20 mil réis e, algum tempo após, o não menos fabuloso "Amor de Malandro" ("Se ele te bate/ é porque gosta de ti/ pois bater em quem não se gosta/ eu nunca vi") custaria 100 mil réis para que Chico Alves o gravasse também na Odeon, ostentando a autoria. O cantor passa, então, a ir, pessoalmente, ao Estácio e propôs uma parceria permanente dos sambas, entre ele, Ismael e Nilton Bastos. Ganhando já notoriedade, Ismael passou a ser chamado como o "preto de alma branca", por coincidência, também o título de um excelente samba de Bucy Moreira, gravado naqueles tempos pelo Grupo Gente do Morro. Pouco depois, morre Nilton Bastos e, em sua homenagem, temos um grande samba, dos mais sentidos e melancólicos, "Adeus", na parceria de Chico, Ismael e um outro ás que ao grupo se juntava: Noel Rosa. Junto com esses dois, Ismael ainda comporia "Para Me Livrar do Mar” (gravação que apresenta uma dupla rara de cantores, Francisco Alves e Silvio Caldas, com Noel no coro), "Boa Viagem", "Uma Jura que fiz", "Ando Cismado", "A Razão dá-se a Quem Tem" e "Quem Não Quer sou Eu". Já, no samba de Noel, "Vejo Amanhecer", temos trio cantando: Noel Rosa, Francisco Alves e Ismael Silva.
Foi um período riquíssimo em criações. Já estava também em circulação a voz original de Mário Reis, que, sozinho, ou em dupla com Francisco Alves, gravou alguns dos melhores sambas da turma do Estácio: "Novo Amor", "Sofrer é da vida", "Ao Romper da Aurora", "Uma Jura que eu fiz" e "Você merece muito mais" – Mário Reis; "Não Há", "Se você Jurar", "Arrependido", "O Que Será de mim?" "Liberdade" - Francisco Alves & Mário Reis. Também Sílvio Caldas ("Cara Feia é fome" e "Agradeças a mim"), Carmen Miranda ("Assim, sim!") e João Petra de Barros ("Não é Tanto assim!") gravaram as suas composições.
Posteriormente, Ismael e Chico Alves brigaram. A última vez que o cantor gravou uma música sua, já na Victor, foi com: "Choro Sim", aliás, um dos mais belos do "bamba do Estácio": "Choro sim, com razão/ acabou minha afeição/ me acompanha noite e dia/ uma grande nostalgia..." Em 1936, Ismael gravou "Desgostoso", com Aurora Miranda. A seguir, foi um hiato, tendo retomado brevemente em 1940, desaparecido outra vez.
Somente há cerca de um decênio que alguns estudiosos começaram a fazer realmente justiça e valorizar a posição de Ismael Silva em nossa música popular. Escreveram-se artigos e biografias, e a "Sinter", então, lançou um
long-playing, com o compositor cantando as suas próprias criações. Alguns anos depois, foi a vez da Mocambo continuar a repô-lo em circulação, noutro long-playing cantando também as suas músicas. Nele figuram duas das últimas melodias de Ismael, lançadas em 1950: "Antonico" e "Meu Único Desejo".

* * *

São raros os compositores populares que possuem um acervo tão grande de sambas de alta categoria. Já citamos acima as gravações da dupla Francisco Alves - Mário Reis. Entre elas, figuram alguns dos êxitos de maior destaque ao qual o virtuosismo vocal da dupla conferiu ainda maior relevo. É o caso, por exemplo, de "Arrependido", em que o contraste entre o fraseado, brejeiro de Mário Reis e o cantabile melancólico do "Rei da Voz" é explorado com grande eficácia, resultando numa das melhores interpretações existentes: "Eu fiz tudo pra esquecer a quem amei/ hoje estou arrependido, sem querer já chorei; eu já chorei sem querer", com o aforismo final: "Enquanto existir mulher/ há de existir saudade". A outra face desse disco precioso (Odeon - 10.780) apresenta outro "clássico" de Ismael, "O que Será de Mim", um daqueles sambas integrado na série de glorificação à malandragem: "Se eu precisar algum dia/ de ir pro batente/ não sei o que será/ pois vivo na malandragem/ e vida melhor não há", contendo no desfecho, o arroubo franco, eufórico e confessional, "o trabalho não é bom/ oi, trabalhar só obrigado/ por gosto ninguém vai lá". Outra gravação valiosa é a Odeon, de n° 10.747, onde estão "Não Há" e o bem conhecido "Se Você Jurar", com a dupla propiciando uma aula de interpretação e de adaptação rítmica para duas vozes. Segundo depoimentos mais recentes, inclusive do próprio IS, o primeiro dos sambas mencionados ("Não há, não há quem não se iluda/ com teu sorriso traidor/ dizem que vingança é pecado/ então tu podes crer/ que eu serei um pecador") é inteiramente de sua autoria, e o segundo ("Se você jurar/ que me tem amor/ eu posso me regenerar/ mas se é para fingir mulher/ a orgia eu assim não vou deixar") inteiramente de Nilton Bastos. Como sempre, segundo o acordo celebrado, o nome de Chico Alves figura no selo também como compositor. Nos discos deste último, cantando sozinho, vale ressaltar as gravações que fez com acompanhamento dos Bambas do Estácio, especialmente "Nem é Bom Falar" ("Nem tudo que se diz se faz/ eu digo e serei capaz...") e o antológico "Ironia" ("Não tens nada de beleza..."), onde o cantor entra apenas num breve trecho - o restante é uma autêntica demonstração de virtuosismo do conjunto. Na voz de Mário Reis, o primeiro (e dos maiores sucessos) samba de Ismael a ser gravado foi "Novo Amor" - "Tu fazes pouco em mim/ mas isto que bem me importa/ ficas sabendo meu bem/ que o mundo dá muita volta", onde o acento que torna sabendo uma proparoxítona corresponde à marcação silábica do intérprete, menos preocupado com o vernáculo e mais preocupado funcionalmente com o ritmo do fraseado melódico. Era uma constante de alguns cantores da época esse, deturpar funcional da acentuação usual. Quanto à rima entre importa e volta, não é provavelmente uma rima toante preconcebida: no linguajar do povo muitos falam vorta em lugar de volta. Finalmente, da dupla Ismael & Noel, na voz de Mário Reis, cabe destacar um dos sambas mais bonitos, "Uma Jura Que Fiz" ("Não tenho amor/ nem quero amar/ pra não quebrar uma jura que fiz"), regravado, em 1959, por Sílvio Caldas, num long-playing.
Hoje em dia, já se fez justiça à contribuição de Ismael Silva. Mas quase que principalmente no terreno dos biógrafos e estudiosos da música popular. No aspecto mais concreto, a regravação de suas músicas permanece restrita apenas a dois discos cantados pelo próprio compositor. E não se fala em reedição das matrizes originais das interpretações de seus sambas.

Retificação: na última quarta-feira, no texto sobre Pixinguinha, atribuímos, inadvertidamente, a Orlando Silva uma gravação do seu choro "Mentirosa", quando o que foi gravado por aquele intérprete é um outro chorinho, homônimo, de autoria da dupla Custódio Mesquita - Mário Lago.

Correio da Manhã
09/12/1964

 
Vogeler: resposta do tempo
Correio da Manhã 19/11/1964

Sinhô: o rei do samba
Correio da Manhã 25/11/1964

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Correio da Manhã 02/12/1964

Ismael: o bamba do Estácio
Correio da Manhã 09/12/1964

Orestes: Poesia e Seresta
Correio da Manhã 16/12/1964

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Correio da Manhã 23/12/1964

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Correio da Manhã 30/12/1964

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Correio da Manhã 06/01/1965

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Correio da Manhã 13/01/1965

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Correio da Manhã 20/01/1965

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Correio da Manhã 27/01/1965

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Correio da Manhã 10/02/1965

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Correio da Manhã 17/02/1965

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Correio da Manhã 24/02/1965

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