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Francisco Alves: o rei da voz

Talvez Francisco Alves haja sido, entre os intérpretes da canção popular, aquele que mais tenha sustentado o mito do cantor. Durante mais de trinta anos encheu a cidade com sua voz e, pelo menos, durante cerca de 27 anos, até morrer num acaso rodoviário, manteve-se no pináculo. Haviam períodos em que, passageiramente (e o fenômeno Orlando Silva foi o mais vigoroso nesse sentido) poderia estar algo eclipsado por outros intérpretes, mas sempre acabava emergindo no primeiro plano. O samba, a marchinha carnavalesca, a seresta, a valsa de salão, o tango, as inúmeras versões de vários ritmos do repertório estrangeiro – a tudo adaptou os seus dotes vocais, na verdade excepcionais. Até mais ou menos por volta de 1937, quando deixou de gravar nos estúdios da RCA Victor e reingressou na Odeon, o timbre de sua voz, a pujança de suas notas, eram incomparáveis, pois sabia equilibrar funcionalmente os arroubos de tenor operístico a par das solicitações e das nuanças do cancioneiro popular. Daí em diante, com o decorrer do tempo, a voz foi-se tornando mais grave, mais abafada na emissão das notas suaves, mas, mesmo assim, fazia imperar o máximo possível de vigor, fôlego e sentimento. E susteve o mito. Demonstração evidente: o seu enterro talvez tenha sido o maior de toda a história do Brasil, o mais espontâneo com respeito à participação do povo.
Francisco Alves nasceu a 19 de agosto de 1898, no bairro da Saúde, Rua da Prainha, hoje Rua do Acre. Seu pai era um comerciante português, de nome José Alves, dono de um botequim. Mais tarde, ainda na infância, mudava-se a família para a Rua Evaristo da Veiga. Naquele tempo já se podia denotar a vocação do Chico: cantar e cantar. Antes de se firmar na ribalta, Chico Alves, ou Chico Viola, enfrentou diversas profissões: engraxate, chapeleiro, motorista de praça, chegando também a trabalhar no circo, a deitar a sua voz sob as lonas por volta de 1918, logo depois de haver tentado o primeiro ensaio na profissão de cantor no pavilhão do Méier. Em 1919, temos um momento histórico: o filho de Ciquinha Gonzaga convida-o para fazer o seu primeiro disco na gravadora Popular. A gravação é também histórica, pois interpretou dois sambas de Sinhô, acompanhado, entre outros, pelo próprio compositor: “Pé de Anjo” e “Fala meu Louro”. Uniam-se, assim, o rei do samba e o rei da voz e, este último, até o aparecimento de Mário Reis, viria a se tornar praticamente no principal intérprete das músicas de Sinhô. Na mesma gravadora, Chico Alves tornou a gravar alguns outros discos, mas sem sucesso de público. Mas, logo mais tarde, quando o empresário José Segreto convidou-o para estrear no teatro São José, a estrela do futuro rei da voz fixou-se em definitivo. Brilhou no palco de diversos teatros. Chegamos, então, a 1927, outro instante histórico: inicia na Odeon a sequencia fabulosa de gravações que só 25 anos depois a morte interromperia. Por coincidência, também na primeira delas, já reaparece ligado a Sinhô, pois interpreta dois sambas deste: o famoso “Ora Veja Só” e “Cassino Maxixe”, que não era nada mais senão a primeira versão, com letra totalmente diferente, de “Gosto que me Enrosco”, que seria pouco tempo depois imortalizado por Mário Reis. Logo a seguir, grava um disco que, numa das faces, apresenta um samba de José Luís de Moraes, “Caninha”, rival principal de Sinhô. O título desse samba – “O Que é Nosso” – constitui homenagem à seção homônica então mantida pelo Correio da Manhã, que estimulava, mediante a divulgação e concursos, não só o carnaval, mas a difusão e o desenvolvimento da própria música popular brasileira. Chico Alves fêz também a primeira gravação elétrica da Odeon e, pouco depois, começava também a ir à cera através do selo vermelho da etiqueta dos discos Parlophon. Na Parlophon, apresentava-se invariavelmente sob o pseudônimo de Chico Viola. Ilustrou, também, com esse pseudônimo certos êxitos na etiqueta Odeon, especialmente quando gravava acompanhado pelo grupo Bambas do Estácio, ou Gente Boa.
Aí já era a fase da amizade com a fabulosa dupla de sambistas, Ismael Silva – Nilton Bastos, de quem comprara muitos sambas e ostentava autoria ou parceria. Já era o tempo de Noel Rosa, de quem, além de intérprete, também foi parceiro, das antológicas duplas vocais com Mário Reis, quando deixaram no sulco das matrizes algumas obras-primas do samba, magistralmente vivido a duas vozes: “Não Há”, “Arrependido”, “Se Você Jurar”, “Nem Assim”, “Liberdade”, etc. Todavia, enquanto borbulhava a fase de ouro do samba (Noel, Ismael, Sinhô, Pixinguinha, Benedito Lacerda, J. Ayberé, Caninha, José Francisco de Freitas, as primeiras composições de Ary Barroso), Chico Alves afiava a voz nas canções e serestas que o ajudaram na fama e também começava o ciclo de versões de melodias internacionais, a maioria delas, com exceção dos tangos (fruto em parte de sua amizade fulminante com o grande Carlos Gardel), advindas dos filmes de sucesso no início da era do cinema falado. De todas as canções, aquela que ficou mais famosa, uma espécie de signo para o mito Chico Viola, foi “A voz do Violão”, de sua parceria com Horácio Campos, gravado por ele quarto vezes. A primeira delas, a menos conhecida, a mais rara, foi de Chico Viola na Parlophon, nº 12.823, feita em 1928. Dois anos após, na Odeon, nº 10.509, vem a melhor e mais famosa das gravações, mesmo porque, na outra face, aparece a também famosa canção-blue da dupla Joubert de Carvalho – Olegário Mariano, “Dor de Recordar”. “A Voz do Violão” varria as madrugadas: “Porém nesse abandono interminável/ no espinho de tão negra solidão/ eu tenho um companheiro inseparável/ na voz do meu plangente violão”. A terceira gravação foi muito tempo depois – 1939, - Odeon nº 11.754, tendo na outra face a conhecida “Valsa dos Namorados”, de Silvino Netto. A voz de Chico, então, já começava a envelhecer, o timbre tornava-se mais grave, mas, nesse disco qual um ato de afirmação, o agudo final é vibrante e poderoso. A quarta e última vez, ainda na Odeon, nº 13.143, corresponde à mais fraca dessas gravações, feita um ano antes de falecer.
Em parceria com Orestes Barbosa, Freire Júnior, Luiz Iglésias, acompanhado por violões ou pelos conjuntos regionais, Chico Alves enriqueceu a cidade de canções. Umas das mais antigas é a gravação de “Malandrinha”, de Freire Júnior, tendo a outra face uma interpretação curiosa: Chico Alves cantando “Toada Sertaneja”, em dupla com Gastão Formenti. “Malandrinha”, também foi regravada por ele posteriormente muitos anos depois. Nas valsas, também ondulou o timbre do rei da voz: são inúmeros os seus discos, ora com músicas de autores nacionais, ora vertendo composições estrangeiras. Vamos ressaltar uma delas, onde a voz de Chico surge lapidar, inclusive com pianíssimos dos mais felizes: “Dançando com Lágrimas nos Olhos”, versão de Lamartine Babo do original de Joe Burke, “Dancing with Tears in my Eyes”, consumada em 1932. Odeon nº 10.825, tendo, na outra face, a bela canção de Francisco Alves e Luiz Iglésias, “Tormento” (“Mulher, o teu amor maltrata tanto/ que às vezes quando a rir doido me ponho…”) com o intérprete acompanhado por uma grande dupla de instrumentistas, Tute e Luperce.
Em 1934, Chico Alves vai para a Victor e lá inicia com Orestes Barbosa: uma canção de parceira dos dois, “Por Teu Amor” e uma versão de Orestes, de Franz Lehar, “Dei-te o meu Coração”. Na fase Victor, além de levar à cera alguns dos maiores sucessos de carnaval (“É Bom Parar”, “Foi Ela”, “Grau Dez”, “A.M.E.I.” etc), continuou enriquecendo a fase das valsas e canções: “Misterioso Amor”, “Canção do meu Amor”, “A Mulher que Ficou na Taça”, “Só nós dois no Salão… e Esta Valsa”, “Paisagens da Minha Terra”, “Valsa do Rio”, “Guardo no Coração”, “Boa Noite Amor” (esta última, um dos seus grandes sucessos, foi regravada por ele dois anos antes de morrer). Ainda na fase Victor vale registrar dois dos melhores sambas que gravou: “Choro, Sim”, de autoria de Ismael Silva, e “Teus Beijos”, de Nazinho, com um acompanhamento fabuloso dos Diabos do Céu.
A partir de 1937, retorna à Odeon, e gravou nessa empresa quase até o fim da carreira (os dois ultimos discos foram quarto regravações na Victor), abandonando-a apenas entre 1939 e 1941 para graver na Colúmbia, onde registrou alguns sucessos carnavalescos, como “Dama das Camélias”, “Despedida de Mangueira”, “Solteiro é Melhor” e “Poleiro de Pato é no Chão” e outros números consagrados no seu repertório geral, como “Linda Judia”, “Onde o Céu Azul é mais Azul”, “Ao Ouvir esta Canção Hás de Pensar em Mim” e a versão do famosíssimo tango internacional de Jacob Gade, “Jalousie”. Na Odeon, novamente, principia a fase final e realmente mais inexpressive de sua imensa discografia. Mas lá recomeça com enorme êxito: “Canta Brasil”, de Alcir Pires Vermelho e David Nasse, replica à Aquarela do Brasil, lançada dois anos antes na própria Odeon, ou replica e, ao mesmo tempo, início da fiada do samba grandiloquente, nacional-ufanista e cinemascópio em material orquestral. “Aquarela do Brasil”, se, por um lado, não desmente o talento melódico, a inspiração hinária de Ary Barroso e permitiu que Chico subisse outra vez às nuvens num momento em que Orlando Silva ainda dava as cartas, por outro permitiu e marcou uma fase paradoxal: desnacionalização do samba, num momento em que sua letra, no sentido épico, era o mais possível nacionalista.
Em 27 de setembro de 1952, dá-se o acidente: dirigia o seu automóvel pela Estrada Rio-São Paulo, de retôrno para o Rio, quando, perto de Taubaté, colidiu com um caminhão que vinha em sentido contrario. Chico morreu carbonizado. Logo que eclodiu a notícia, o povo entrou em catarse; os radios passaram, em sua maioria, quase ininterruptamente, a transmitir suas gravações até a apoteose
postmortem, que foi o seu monumental enterro. Morreu, mas ficou a voz, ficaram os discos.

Discografia

Não sabemos como andam as conservações das matrizes da Odeon, mas até hoje, reedita em long-playing a maioria maciça de suas gravações mais inexpressivas, mais imediatamente “comerciais”. A Victor ainda lançou um long-playing com algumas peças de interesse. Mas o desinteresse me por em circulação o velho e autêntico Chico Viola continua patente.
Em material de discografias, existe a contribuição de dois levantamentos meritórios: a discografia de Silvio Túlio Cardoso, publicada nos números 3, 4 e 5 da extinta Revista da Música Popular, e a mais recente, de Ary Vasconcelos, no seu importante livro “Panorama da Música Popular Brasileira”. Esta segunda discografia, embora não contenha muitos títulos apontados na primeira, é mais completa no sentido de indicar os compositores das músicas e as orquestras, o que é omitido na primeira. Com o intuito de contribuição para esses levantamentos discográficos e, acompanhando o critério rigoroso de fornecer os nomes dos compositores e a indicação dos acompanhamentos, vamos apresentar abaixo 16 discos omitidos na discografia de Ary Vasconcelos.
1. Eu ouço falar… (Seu Julinho) - samba J. B. da Silva (Sinhô)
Para mim perdeste o valor – samba – Francisco Alves.
Odeon – 10.142 – Francisco Alves com orquestra Pan-American.
2. A voz do amor – tango brasileiro – Ernesto Nazareth (letra de D. Marina Stella Suirino dos Santos)
Caprichosa – tango-canção – Roque Vieira
Odeon – 10.192 – Francisco Alves com a orquestra Rio Artists.
3. Rainha… das crioulas – samba J. Moreira de Aguiar
Sonho revelador – valsa – Pery e Duque Abramonte
Odeon – 10.273 – Francisco Alves com a orquestra Pan-Americana.
4. Eu vivo assim – valsa – Eduardo Souto
Eterna – canção – Eduardo
Odeon – 10.291 – Francisco Alves com orquestra Rio Artists.
5. Canção do vaqueiro – canção
Carta de amor – valsa
Parlophon – 13.179 – Chico Viola com orquestra Simão Nacional.
6. Miami – fox-canção – Chico Bororó e Duque D’Abramonte
Escrita complicada – samba – J. Aymberé
Parlophon – 13.227 – Chico Viola com orquestra Parlophon.
7. Sob uma cascata – fox-trot – Sammy Fain e Oswaldo Santiago
Paisagens de minha terra – valsa – Lamartine Babo
Victor – 33.776 – Francisco Alves com orquestra
8. Em uma linda tarde – samba – Bucy Moreira e Nasinho
Choro, sim – samba – Ismael Silva
Victor – 33.946 – Francisco Alves com orquestra Victor
9. Guardo no coração – valsa – Kid Pepe e Jessé Nascimento
A canção que eu fiz para você – valsa – José Maria de Abreu e Francisco Mattoso
Victor – 34.104 – Francisco Alves com orquestra.
10. Misterioso amor – valsa – Saint-Clair Senna
A canção do meu amor – canção – Saint-Clair Senna
Victor – 34.150 – Francisco Alves com orquestra.
11. Para que recordar – bolero – Maria Grever, versão de Haroldo Barbosa
Madrugada – samba – Herivelto Martins e Evaldo Ruy
Odeon – 12.888 – Francisco Alves com orquestra Odeon, direção de Lírio Panicali.
12. Forasteiro – samba – Ary Barroso
Maria Rosa – samba – Lupicínio Rodrigues e A. Gonçalves
Odeon – 13.001 – Francisco Alves com orquestra.
13. Saudades do passado – samba – David Nasser – Gomes Cardim – F. Alves
Não sei – canção – Francisco Alves e Orestes Barbosa
Odeon – 13.100 – Francisco Alves com orquestra regional.
14. A voz do violão – canção – Francisco Alves
Lua nova – canção – Francisco Alves e Luiz Iglésias
Odeon – 13.143 – Francisco Alves com orquestra.
15. Tempo feliz – Francisco Alves e David Nasser
Pra São João decidir – samba – Lupicínio Rodrigues e Francisco Alves
Odeon – 13.274 – Francisco Alves acompanhado de regional.
16. Malandrinha – canção – Freire Júnior
A mulher do meu amigo – samba – Dennis Brean e Oswaldo Santiago
Odeon – 13.494 (Standard) – Francisco Alves com orquestra.

Correio da Manhã
23/12/1964

 
Vogeler: resposta do tempo
Correio da Manhã 19/11/1964

Sinhô: o rei do samba
Correio da Manhã 25/11/1964

Pixinguinha: Dos Sete Instrumentos
Correio da Manhã 02/12/1964

Ismael: o bamba do Estácio
Correio da Manhã 09/12/1964

Orestes: Poesia e Seresta
Correio da Manhã 16/12/1964

Francisco Alves: o rei da voz
Correio da Manhã 23/12/1964

Benedito Lacerda: ou A Flauta de Prata
Correio da Manhã 30/12/1964

Cândido das Neves “Índio”: seresteiro da cidade
Correio da Manhã 06/01/1965

Orlando Silva: o cantor das multidões
Correio da Manhã 13/01/1965

Noel Rosa: Poeta da Vila, do Samba, do Povo
Correio da Manhã 20/01/1965

Ernesto Nazareth: o criador do tanguinho
Correio da Manhã 27/01/1965

Carmen Miranda: "A pequena notável"
Correio da Manhã 03/02/1965

Joubert de Carvalho: o criador de "Maringá"
Correio da Manhã 10/02/1965

André Filho: da Cidade Maravilhosa
Correio da Manhã 17/02/1965

Mário Reis: Rei da bossa
Correio da Manhã 24/02/1965

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