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Vogeler: resposta do tempo

Como uma espécie de prelúdio ao IV Centenário, iniciamos hoje, e a seguir, todas as quintas-feiras uma série de reportagens a respeito de personalidades de nossa música popular. Nada mais natural: compositores, instrumentistas, cantores e letristas, são eles e foram eles que povoaram de música esta cidade. Ninguém melhor formulou a vida do Rio, a odisséia do carioca, do que os sambistas, os seresteiros, os chorões, os ritmistas, os repentistas da rima. O Rio de Janeiro com suas alegrias e seus problemas, suas festas e suas tragédias. Consumaram uma espécie de crônica histórica musicada da nossa cidade, esta cidade que um deles mesmo denominou de “maravilhosa” e cuja composição é, hoje, hino do povo que celebra seu IV Centenário. A política, os costumes, a administração, a notícia, em suma – tudo foi motivo de criação, de amor ao Rio de Janeiro. Homens do povo em sua quase esmagadora totalidade, simples e espontâneos. A eles, mais do que ninguém, a homenagem desta cidade que muito lhes deve.

Vogeler: resposta do tempo

O nome de Henrique Vogeler apenas tem trânsito, praticamente, entre os estudiosos de nossa música popular. Jamais teve a fama que tem ou tiveram um Noel Rosa, um Sinhô, um Pixinguinha, um Ary Barroso, um Benedito Lacerda ou mesmo alguns compositores de nível bastante inferior. É no entanto o autor de uma das páginas imortais de nosso cancioneiro, o assim chamado
Ai Ioiô, música que já foi gravada dezenas de vezes, por dezenas de intérpretes e que, no referendum realizado, em 1953, pela revista Manchete, foi considerado – ouvidas autoridades, como Almirante, Lúcio Rangel, Vinicius de Moraes, Bororó e muitos outros – um dos maiores sambas de todos os tempos.
Henrique Vogeler nasceu em 11 de junho de 1888, na Rua Marquês de Sapucaí, no Catumbi. Estudou no colégio São Bento e também, desde a infância, já estudava piano, instrumento no qual tornou-se um expert e que lhe foi foco de inspiração. Foi o autor de várias operetas, gênero muito em moda em sua época: Gigante Papa-Gigante, Senhorita, Maria Negra, Branca de Neve e os Sete Anões e Canção Brasileira. Muitas delas permaneceram inéditas, mas, em compensação, a Canção Brasileira marcou sucesso no Teatro Recreio, em 1933, quando então estreava no palco a cantora Gilda de Abreu, sendo Vicente Celestino o outro protagonista. Vogeler foi diretor artístico da Brunswick, no período das excelentes gravações dessa companhia – quase todas sob o indefectível selo dourado. Mais tarde, passou a diretor de gravação da Odeon. Também pertenceu aos quadros do Conservatório Nacional de Canto Orfeônico, havendo sido nomeado por Villa Lobos. Fora dos afazeres musicais, registra-se outra atividade sua: funcionário da Central do Brasil. Faleceu no Hospital do Pronto Socorro, em 9 de maio de 1944, e foi enterrado no cemitério do Caju.

A Obra

O ano de 1928 registra o aparecimento em disco de
Ai Ioiô. Contudo, não era este o nome do samba-canção. Entitulava-se Linda Flor, e era cantado por Vicente Celestino, acompanhado pela orquestra Rio Artists, então no apogeu dos seus dotes vocais de tendências operísticas. Para o interesse dos estudiosos e colecionadores, completamos os detalhes: gravação em selo azul claro da Odeon, sob o número 10.338. Somente um pouco mais tarde, com a transposição de Luiz Peixoto e Marque Porto para um espetáculo no palco, é que, com a mudança integral da letra, veio o Ai Ioiô imortalizada por Aracy Cortes, possuidora de um estilo completamente diferente de interpretar do proporcionado por Vicente Celestino. Pode-se dizer, uma alternativa perfeitamente dialética para aquilo que o compositor denominara samba-canção. Celestino interpretara a peça mais no estilo canção internacional, utilizando a pujança da voz a todo momento em que a partitura ensejava os agudos. Já Aracy Cortes trouxe a versão samba, isto é, facultada pela renovação dos versos românticos num estilo brejeiro, inseriu a chamada “bossa”, mediante um frasear leve descompromissado com os arroubos vocais. Mas cabe um detalhe curioso. A sua gravação da peça não se denomina Ai Ioiô, e, sim, Yayá, e, ao lado do nome Vogeler, figuram os de Luis Peixoto e Marques Porto. A gravação é Parlophon, acompanhamento da orquestra Parlophon, selo vermelho, sob o número 12.926.
Porém, se a fama coroou Yayá, seria injusto não dar o realce a outras composições, quase do mesmo nível qualitative. Vale citar É Tão Bonitinha, gravada, em 1929, por Mário Reis, em disco Odeon, acompanhado da orquestra Pan-American; os “hinos patrióticos”, gravados por Gastão Formenti para a Brunswick, em 1930, o primeiro deles, sob o título de 24 de Outubro, com letra de Catulo da Paixão Cearense, e o segundo, os 18 de Copacabana, com letra de Horácio Campos, autor tambémda da letra da canção mais famosa de Francisco Alves, A Voz do Violão; Ioiô Deste Ano, samba carnavalesco, gravado na Brunswick, em 1930, por Sylvio Caldas e, provavelmente, a primeira gravação do grande seresteiro. É também de ressaltar que Vogeler, tendo sido orquestrador e pianista da Brunswick, tornou-se acompanhante, ao piano, em muitas gravações daquela empresa.
A obra de Vogeler, refletida, por exemplo, na dualidade de interpretação de Ai Ioiô, acima mencionada, traduz um momento importante de transição em nossa música popular somente igualado em importância, na recente transição para a Bossa Nova: o momento em que o samba passava a obter estilo próprio, isto é, passava a ganhar uma espécie de autonomia de matrizes e matizes rítmicos, desinternacionalizando-se pelas ascendências de determinados instrumentos, alguns típicos, seja de sopro, cordas ou percussão. Na fase em que os Oito Batutas (pontificando Pixinguinha e Donga) excursionavam à Europa, em que Benedito Lacerda, na Brunswick, comandava (além de cantar ou solar com a flauta) o fabuloso Grupo Gente do Morro, em que Mário Reis, começando a aprender violão Cm J. B. da Silva (Sinhô), não só tornou-se o cantor ideal e preferido daquele extraordinário criador, como introduziu um novo estilo de cantar, em que se iniciava a grande dupla do Estácio, Ismael Silva & Nilton Bastos, enfim, a época em que aparecia Noel Rosa, com a sua saga rítmica e verbal do carioca, introduzindo o coloquial, a sátira e a caricatura em suas letras. Vogeler, vindo das interpretações, ao teclado, dos tangos de Ernesto Nazareth, também povoou e enriqueceu melodicamente esse novo período, marcando os extertores do que lhe antecedera.
Entre as muitas outras melodias de sua autoria, pode-se citar Puxa-puxa, Cafajeste e Morena, Adivinha que Eu Gosto de Ti (esta, com letra de Joraci Camargo), gravadas por Chico Alves, Na Minha Casa (letra de Luís Peixoto), Meu Ceará (letra de Lamartine Babo), Sonho de Natal (letra de Lamartine Babo), Sou Ioiô de Iaiá, Bamba, Luizinha (letra de Horácio Campos), Canção Discreta, todas gravadas por Gastão Formenti.
Vogeler: parafraseando Drummond, procuremos fazer com que o tempo responda.

Correio da Manhã
19/11/1964

 
Vogeler: resposta do tempo
Correio da Manhã 19/11/1964

Sinhô: o rei do samba
Correio da Manhã 25/11/1964

Pixinguinha: Dos Sete Instrumentos
Correio da Manhã 02/12/1964

Ismael: o bamba do Estácio
Correio da Manhã 09/12/1964

Orestes: Poesia e Seresta
Correio da Manhã 16/12/1964

Francisco Alves: o rei da voz
Correio da Manhã 23/12/1964

Benedito Lacerda: ou A Flauta de Prata
Correio da Manhã 30/12/1964

Cândido das Neves “Índio”: seresteiro da cidade
Correio da Manhã 06/01/1965

Orlando Silva: o cantor das multidões
Correio da Manhã 13/01/1965

Noel Rosa: Poeta da Vila, do Samba, do Povo
Correio da Manhã 20/01/1965

Ernesto Nazareth: o criador do tanguinho
Correio da Manhã 27/01/1965

Carmen Miranda: "A pequena notável"
Correio da Manhã 03/02/1965

Joubert de Carvalho: o criador de "Maringá"
Correio da Manhã 10/02/1965

André Filho: da Cidade Maravilhosa
Correio da Manhã 17/02/1965

Mário Reis: Rei da bossa
Correio da Manhã 24/02/1965

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