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Orlando Silva: o cantor das multidões

A aparição de Orlando Silva no meio do decênio dos trinta, foi fulminate em material de êxito. Sacudiu o que seria os ultimo’s extertores das gerações românticas. Foi logo cognominado como o “cantor das multidões”, pois a massa dos fans era inaudita. Fez apagar passageiramente a estrela de Chico Alves, embora, por ironia, fosse este ultimo quem o lançasse ao sucesso, fazendo-o estrear no seu programa da radio Cajuti, em 1934 – ano em que também gravou, na Colúmbia, o seu primeiro disco, com as músicas “Olha a Baiana” e “Ondas Curtas”.
A voz de Orlando Silva foi, nos seis ou sete anos do período de apogeu, uma das mais belas ou, talvez mesmo, a mais bela entre as que delinearam o nosso cancioneiro popular. E o cantoi sabia explorá-la, em alguns casos até procurando valorizar o seu virtuosismo dos agudos e notas suaves e demoradas, em detrimento de uma interpretação mais autêntica e funcional de determinadas peças. Mas era o que o público pedia – a voz, em detrimento até das próprias músicas.
Tudo isso, no entanto, não desmereceu o grande intérprete que foi. Hoje é a própria “bossa-nova” que, além de Mário Reis, vai buscar no Orlando dos velhos tempos um exemplo instigante do processo que a justifica. João Gilberto – agora, o nosso maior cantor – esmera-se em interpretar antigos números do cantor das multidões (“A Primeira Vez”, “Aos Pés da Cruz”) e, até há pouco, surgiam cantando juntos em programs de televisão. Muito justo, já que permanecem as velhas gravações desafiando o tempo. E Orlando, sambista e seresteiro, deixou registros notáveis. Em primeiro lugar, algumas canções gravadas na Victor, acompanhado pelos violões de Pereira Filho e Luís Bittencourt e pelo bandolim de Luperce: “Lágrimas”, “Última Estrofe” e “Apoteose do Amor”, todas de Cândido das Neves “Índio” e “Céu Moreno”, de Uriel Lourival. Esses discos, produzidos no período entre 1935-36, constituem um dos momentos mais altos do estilo seresta. O intérprete, ainda sem haver atingido o auge da fama, era mais discreto em seus arroubos vocais e, por isso mesmo, propiciava interpretações de rara autenticidade. A voz era menos lapidada, porém mais sugestiva em uma série de nuances. O “cantor das multidões” de 1937 em diante jamais cantaria, por exemplo, “A última Estrofe”, deixando escapar o ensejo para abrir a voz em notas poderosas, mas jamais também repetiria aquele filete expressivamente lírico e que reflete a sensibilidade adequada ao instrumento. O mesmo poder-se-ia dizer para “Lágrimas” ou para o quase esquecido “Céu Moreno” (“Deixai, deixai minh’alma entre as verbenas/ entre as rosas bem morenas/ moreninhas, liriais”), sem falar na maior criação de todas, a de “Apoteose do Amor”, onde num maremoto de metáforas, vazadas numa espécie de grandiloquencia primitiva, a sua voz ondula em lentidão encantatória. Pouco tempo depois, ainda na Victor, veio o momento do seu primeira grande sucesso, quase um prefixo para anunciar a sua presença: “Lábios que Beijei”, valsa de J. Cascata e Leonel Azevedo: “Lábios que eu beijei/ mãos que eu afaguei/ numa noite de luar, assim/ o mar na solidão bramia/ e o vento a soluçar pedia/ que fosses sincera para mim”… até chegar ao famoso trecho, “tua imagem permanence imaculada/ em minha retina cansada”. Logo a seguir, outras notáveis interpretações, como a valsa “Aliança Partida”, de Benedito Lacerda e Roberto Martins, o samba “Boêmio”, de Ataulfo Alves, a valsa “Rosa”, de Pixinguinha (além de grande sucesso, corresponde a outra interpretação fabulosa). “Carinhoso”, o choro de Pixinguinha, “Lágrimas de Rosa”, valsa-canção de Kid Pepe e Dante Santoro, “Caprichos do Destino”, valsa de Claudionor Cruz e Pedro Caetano (outro dos grandes hits: “Se Deus um dia olhasse a terra e visse o meu estado…”), “Meu Romance”, samba de J. Cascata, e a valsa “Neusa”, de Antônio Cladas e Celso de Figueiredo, o samba “Amigo Infiel”, de Benedito Lacerda, o fox-canção “Nada Além”, de Custódio Mesquita e Mário Lago, o samba “Errei… Erramos”, de Ataulfo Alves, “Deusa do Cassino”, valsa de Newton teixeira e Tôrres Homem, esta uma página inesquecível de Orlando: “As tuas mãos vaporosas/ mexendo as fichas, nervosas/ tinham presos os olhos meus/ nas fichas mais valiosas/ nas dez fichas côr de rosa/ das pontas dos dedos teus/ A tua boca vermelha, com as copas se assemelha/ no seu feitio e na cor/ boca que vale tesouros/ vale mais que o az de ouros/ numa sequência de amor”.
No terreno do carnaval, o cantor das multidões granjeou prêmios, reforçou o sucesso tremendo. Algumas das melodias que lançou, até hoje retornam infalívelmente no período de Momo, especialmente a marcha “A Jardineira”, de autoria de Benedito Lacerda e Humberto Porto: “Ó jardineira porque estás tão triste/ mas o que foi que te aconteceu/ foi a camellia que caiu do galho/ deu dois suspiros e depois morreu.” A face oposta, no disco da “Jardineira”, apresenta um ótimo samba, outro grande êxito carnavalesco, “Meu Consolo é Você”, de autoria de Nássara e Roberto Martins. Também até hoje repisado nos carnavais é o samba de Roberto Martins e Arlindo Marques Junior, “Abre a Janela”: “Abre a janela, Formosa mulher/ e vem dizer adeus a quem te adora/ apesar de te amar como sempre amei/ na hora da orgia eu vou-me embora”. É, afora os acima citados, cabe também registrar os seguintes para aquela época: “Cidade Mulher”, marcha de Noel Rosa; “O Homem sem Mulher não vale Nada”, samba de Arlindo Marques Júnior e Roberto Roberti: “Malmequer”, marcha de Newton Teixeira e Cristovão de Alencar: “A Primeira Vez”, samba de Alcebíades Barcellos e Armando Marçal; “Alegria”, samba de Assis Valente e Durval Maia: “Lero-lero”, marcha de Benedito Lacerda e Frazão.
Até 1942, Orlando Silva permaneceu gravando na Victor, onde encerrou suas atividades lançando duas músicas de Ary Barroso: o samba “Faixa de Cetim” e a valsa “Quero Dizer-te Adeus”. Em 1943, passa para a Odeon, e, a partir daí, a sua voz começa a decair, sendo que, poucos anos depois, torna-se-lhe impossível reeditar vocalmente algumas criações magníficas da primeira fase. Mesmo assim, ainda pontificou com alguns grandes sucessos: “Duas Vidas”, valsa de Claudionor Cruz e Pedro Caetano: “Atire a Primeira Pedra”, tremendo êxito do carnaval de 1944 e também um dos maiores sambas de Ataulfo Alves: “Covarde sei que me podem chamar/ se ainda trago no peito esta dor/ atire a primeira pedra iaiá/ naquele que não sofreu por amor”: “Brasa”, um dos melhores sambas de Lupercínio Rodrigues, feito em parceria com Felisberto Martins: “Carioca Boêmio”, samba-choro de Heitor dos Prazeres: “Voltei Sertaneja”, canção de René Bittencourt, que constitui uma espécie de continuação à “Seraneja”, do mesmo compositor, e ponto alto do repertório de Orlando, havia cerca de oito anos; “Zé Ponte”, canção de Lupicínio Rodrigues e Felisberto Martins: “E toda a vez que ela carrega um balde d’água/ leva junto a minha mágoa/ pendurada em sua mão…”
Em 1949, saí da Odeon e vem um hiato em sua carreira. Parecia mesmo a alguns que nunca mais conseguiria retornar ao radio, aos discos, aos grandes auditórios, enfim, ao seu ainda grande público. Mas, decorridos cerca de dois anos, voltou. E seu nome começa a aparecer nas novas etiquetas da Copacabana gravando novas composições de alguns que foram sustentáculo musical do seu enorme sucesso de outrora, como a dupla J. Cascata – Leonel Azevedo, Ataulfo Alves ou René Bittencourt. Foi, pouco a pouco, tornando a se afirmar, embora os recursos vocais não traduzissem uma volra ao esplendor do passado. Chegou a época dos discos de longa-duração e, ao lado de novos números, passou a regravar seu velho repertório. Mas existem dois long-playings, estes os mais valiosos, que relançam antigas matrizes do cantor das multidões de outrora. São ambos da Victor: o primeiro, de dez polegadas, intitulado “O Cantor das Multidões”, tem duas faixas antológicas – aquelas correspondentes a “Rosa” e “Última Estrofe”: o Segundo, já de doze polegadas, intitulado “Uma Dor e uma Saudade”, incluindo, além do samba-título, o famoso “Errei… Erramos”, de Ataulfo Alves.
Orlando Garcia da Silva nasceu na Rua General Clarindo, hoje Rua Augusta, no bairro de Engenho de Dentro, a 3 de outubro de 1915. Aos três anos de idade, perde o pai. Desde cedo começou a trabalhar no comércio: de início, como sapateiro; depois, em lojas, como vendedor de roupas e tecidos: a seguir, trocador de ônibus. Até 1934, quando Bororó levou-o a Francisco Alves e este, dentro do seu carro, impressionado pela voz do Novato, deciciu faze-lo ingressar no rádio. Foi o sucesso inusitado, e poucos anos após, Orlando, aonde quer que fosse cantar, encontrava multidões a esperá-lo. O fenômeno repetia-se, de emissora a emissora, de cidade a cidade. Apareceu também no cinema e, nestes ultimo’s tempos, brilhou na televisão. E ainda continua gravando. É de lamentar apenas que a Victor – não sabemos se por defeito ou destruição das matrizes – não tenha se interessado em, através dos long-playings, repor em circulação todo o fabuloso período inicial da sua carreira. Nos “sebos”, vende-se a peso de ouro os velhos discos de Orlando Silva, em 78 rotações, estejam, além de usados, arranhados ou mesmo rachados. A reedição dos originais de sua interpretação faz-se essencial, especialmente de peças como “Apoteose do Amor”, “Lágrimas” (primeira gravação), “Chora Cavaquinho”, “Céu Moreno”, “História Joanina”, “Mágoas de Caboclo” (primeira gravação), “Cancioneiro”, “Dama do Cabaré” (o conhecido samba de Noel Rosa), “Lábios que beijei”, “Aliança Patida”, “Meu Romance”, “Eu Sinto uma Vontade de Chorar”, “Deusa do Cassino”, “Amigo Infiel” e “Por Ti”.

Discografia

A primeira discografia, incompleta quanto aos dados sobre as gravações foi publicada por Enecê, na “Revista da Música Popular”. Agora, recentemente, temos a de Ary Vasconcelos, em seu “Panorama da Música Popular Brasileira”. No intuito de colaboração, vamos apresentar três peças onitidas por este ultimo em sua discografia, todas elas correspondentes ao período áureo do cantor, além do long-playing “Serenata”, justamente o melhor de Orlando em sua última fase.

1)
Adeus – samba-canção – Newton Teixeira e Christovam de Alencar;
Deusa do Cassino – valsa – Newton Teixeira e Torres Homem
Victor – nº 34.319 – Orlando Silva com orquestra
2) Meu coração a teus pés – valsa – Benedicto Lacerda e Jorge Faraj
Amigo Infiel – samba – Benedicto Lacerda e Aldo Cabral
Victor – nº 34.366 – Orlando Silva com orquestra
3) A Felicidade perdeu seu endereço – choro estilizado – Pedro Caetano e Claudionor Cruz;
Não creio na ventura – valsa – Claudionor Crz e Pedro Caetano
Victor – nº 34.594 – Orlando Silva com orquestra
4) “Serenata”, long-playing de 10 pols. da Odeon – MOBD – 3071 – Orlando Silva interpretando as seguintes composições de Freire Junior: Olhos japoneses (valsa); Malandrinha (modinha); Revendo o passado (valsa); A Beira-Mar (tango-fado, com letra de Hermes Fontes); Luar de Paquetá (canção, com letra de Hermes Fontes); Santa (canção); Pálida morena (canção modinha); Deusa (canção modinha).

Correio da Manhã
13/01/1965

 
Vogeler: resposta do tempo
Correio da Manhã 19/11/1964

Sinhô: o rei do samba
Correio da Manhã 25/11/1964

Pixinguinha: Dos Sete Instrumentos
Correio da Manhã 02/12/1964

Ismael: o bamba do Estácio
Correio da Manhã 09/12/1964

Orestes: Poesia e Seresta
Correio da Manhã 16/12/1964

Francisco Alves: o rei da voz
Correio da Manhã 23/12/1964

Benedito Lacerda: ou A Flauta de Prata
Correio da Manhã 30/12/1964

Cândido das Neves “Índio”: seresteiro da cidade
Correio da Manhã 06/01/1965

Orlando Silva: o cantor das multidões
Correio da Manhã 13/01/1965

Noel Rosa: Poeta da Vila, do Samba, do Povo
Correio da Manhã 20/01/1965

Ernesto Nazareth: o criador do tanguinho
Correio da Manhã 27/01/1965

Carmen Miranda: "A pequena notável"
Correio da Manhã 03/02/1965

Joubert de Carvalho: o criador de "Maringá"
Correio da Manhã 10/02/1965

André Filho: da Cidade Maravilhosa
Correio da Manhã 17/02/1965

Mário Reis: Rei da bossa
Correio da Manhã 24/02/1965

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