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Ernesto Nazareth: o criador do tanguinho

Ernesto Nazareth, como observa Vasco Mariz, em “A Canção Brasileira”, não foi um compositor vocal, embora, posteriormente, muitas de suas composições hajam sido adaptadas para o canto. O próprio Francisco Alves, no início de sua carreira, gavou um dos seus tangos, “A Voz do Amor”, com letra de D. Marina Stella Suirino dos Santos. Muitas letras, escritas com o obletivo de criar novos ensejos para circulação de suas músicas, não faziam justiça ao autor destas últimas. Mas traduziam a permanência de uma obra que não se limitou, em boa parte, ao sucesso passageiro, às inspirações ou encomendas de ocasião. Ao contrário, até hoje, apesar do inarredável conflito de gerações, de duas épocas bastante distintas que separaram drasticamente a formação do appeal à sensibilidade, os seus tanguinhos, choros, polcas, valsas ainda sobrevivem, ainda são escutados e editados.
A contribuição de Ernesto Nazareth, embora a absorção estrutural de concepções alienígenas para a músia ligeira ou semi-erudita, pode ser considerada autênticamente brasileira, de motivação bram carioca – a partir mesmo de diversos títulos-pretexto: “Carioca”, “Cutuba”, “Espalhafatoso”, “Está Chumbado”, Gaúcho”, “Odeon”, “Elite-Clube”, “Ranzinza”, “Cuiubinha”, “Xangô” etc. E, pelas linhas melódicas, perpassa, amiúde, um tonus emocional bem particular. Assim, não sendo um compositor erudito, não foi também um compositor de música popular no sentido mais imediato do termo, tal como hoje entendido. É por todos reconhecida a influência de Chopin em sua obra e o mesmo Vasco Mariz, no livro acima citado, já considera aquela influência como uma autêntica obcessão. E, na técnica pianística, possuia conhecimentos e atributos que lhe davam uma opção formativa bem diversa daquela, proposta pelos azares da improvisação.
De qualquer maneira, o melódico de Nazareth, marcando o Rio de Janeiro do fim do século passado e da primeira parte deste, constituiu um dos elementos sistemáticos que formularam uma das fascetas da ambiência espiritual do carioca no período de pré-industrialização. Prestou sua homage pessoal a fatos e fatores de uma cidade e de seu temperamento. A sua bagagem musical é das mais amplas e Brasílio Itiberê, de modo radical, aponta-o como o marco inicial da música brasileira. Também, Segundo Mário de Andrade, é o “fixador do Maxixe” – o maxixe que se transformaria, aos poucos, mutatis mutandi, no samba.
Alexander Brailowsky, depois de haver travado contato com as suas peças para piano, declarou: “É preciso ser bem brasileiro para poder tocar uma obra assim, tão cheia de vida tropical, movimento e ousadia de ritmos”. E, ainda mais radical: “Acho mais fácil encontrar quem toque bem uma rapsódia de Lizt, do que um tango de Nazaré”. Poucos dias depois da morte de Ernesto Nazareth, o nosso colunista Jie, que assinava a seção “Correio Musical”, do Correio da Manhã, assim qualificou, em 7 de março de 1934, as suas características criativas: “Contribuiram para dar estranho fulgor à obra de Nazareth, tornando-a de intense brasilidade, a variedade de ritmos, a toada, o caráter nacional da síncopa, a melodia viva ou sentimental e uma espécie de contraponto violeiro, que lhe enriquecia extraordiariamente a técnica pianística com o próprio valor da composição.

Ernesto Júlio de Nazareth nasceu no Morro do Pinto, antigo Morro do Nheco, a 20 de março de 1863. Por influência de sua mãe, que era pianista, teve, desde cedo o interesse voltado para a música, embora haja sofrido um acidente que lhe prejudicara seriamente a audição do ouvido direito. Tão rápido foi a sua evolução como estudante de piano que, aos 14 anos, compunha a sua primeira polca, “Você Bem Sabe”, publicada posteriormente pelo editor Arthur Napoleão.
Mais tarde, foi residir em São Paulo, onde ficou cerca de 12 anos, lá tendo-se casado e, lá, nascido seus filhos. Continuava a compor. Depois de volta ao Rio de Janeiro, as suas polcas e tangos brasileiros (assim chamados porque diferiam do tango argentino) já eram publicados com exito. Mas o primeiro sucesso nacional deu-se com o tango “Brejeiro” – não só nacional, mas também internacional, pois era executado pela Guarda Republicana de Paris. E, segundo Ary Vasconcellos – “Panorama da Música Popular Brasileira”, o seu primeiro concerto público, ao piano, deu-se, por iniciativa do Clube de São Cristovão, no Salão Nobre da Intendência da Guera, em 1898.
No princípio deste século, Nazareth, além de compor, passou a cingir-se, profissionalmente, às aulas particulares de piano e a tocar em casas de música. Tocava também em clubes, festas e residencias particulares. A partir de 1920, começa uma fase de grande êxito: execuções na sala de espera do cinema Odeon, interpretando os grandes clássicos ao teclado, e suas composições, enquanto o público aguardava a hora do cinema propriamente dito. Quatro anos depois, retorna a São Paulo, com convites para dar recitais em diversos em diversos lugares. Após, volta ao Rio, ingresso no radio, outras tournées artísticas, enquanto a solicitação ao público para as suas músicas já vai ultrapassando o interesse pela interpretação dos autores eruditos estrangeiros. Era a consagração de um música nacional.
Mas, nos fins de 1932, a enfermidade que lhe atacava e prejudicava a audição foi-se agravando. Os especialistas nada puderam fazer a fim de evitar a surdez. Logo depois, foi preso de distúrbios nervosos, acessos de insanidade, e teve de ser internado, primeiro no Instituto Neuro-Psiquiátrico, depois numa colônia em Jacarepaguá. No dia 1º de fevereiro de 1934, escapou e desapareceu da Colônia. Três dias após, foi encontrado morto.
O Correio da Manhã, de 3 de fevereiro de 1934, sob o título “Evadiu-se de um Estabelecimento de Cura”, noticiou a fuga na página 3, assim descrevendo o fato: “De índole fácil, Ernesto Nazareth tinha permissão para, uma vez ou outra, sair do pavilhão e fazer passeios pelas alamedas da colônia, onde inúmeros outros enfermos entregavam-se a atividades várias, na lavoura, na criação ou na oficina”. “Ante-ontem, num desses passeios, o maestro Nazareth conseguiu, sem ser observado, ganhar a Estrada Rodrigues Caldas, desaparecendo”. “Só mais tarde, à hora de se recolherem os enfermos, é que foi percebida a sua ausência”. “O administrador da colônia, sr. Antônio Gouvêa de Almeida, depois de inúteis batidas pelos arredores, resolveu comunicar o fato às autoridades do 24º Distrito, de cujo concurso espera resultar a descoberta do paradeiro do enfermo”.
E arremata: “Na ocasião em que se evadiu, trajava calça de linho branco e paletó de pijama”.
Estava-se a menos de uma semana do carnaval e, na mesma página 3, O Correio da Manhã, no dia 6 de fevereiro, noticiava a morte do compositor: “O Fim Trágico de Ernesto Nazareth”.
“No domingo à tarde, afinal, o corpo foi achado na mata existente nas proximidades da cachoeira chamada Represa dos Ciganos, na Estrada D’Água. O caminho de acesso é difícil, bastante acidentado e pedregoso, apresentando o corpo várias equimoses no frontal direito e supercilious”. “O fato foi imediatamente comunicado às autoridades do 24º Distrito, indo ao local o comissário Nogueira”. “Com guia dessa autoridade, o cadaver foi removido para o necrotério do Instituto Médico-Legal, onde foi autopsiado, saindo então, ontem à tarde o enterro para o cemitério de São Francisco Xavier”.
Em nossa mesma edição desse dia, Floriano de Lemos, no seu artigo, prestava um depoimento a respeito do drama do artista: “E o desespero do nosso patrício, ferido para a desgraça maior de um mágico dos sons, não se pode descrever. Ele, sentado ao piano, nos últimos tempos, procurava obstinadamente ouvir o que tocava. Curvo, quase encostando o ouvido ao teclado, batia forte sobre as notas, para sentir o efeito das suas produções… Mas tudo em vão. Nem um acorde lhe chegava aos centros nervosos superiores… E, então, Nazareth se entregava a crises de desalento que o obrigavam a recolher-se a um estabelecimento de cura do seu mal. Foi exatamente de uma dessas casas de medicina do espírito que ele saiu há dois dias para ser encontrado sobre as pedras de um despenhadeiro, o ouvido partido, como se quisesse tentar, chegando ao grande silêncio, recolher enfim alguns ecos das melodias que espalhou sobre a terra.”
Coincidência: o grande compositor de um período então ultrapassado, onde a música ainda em muito se confinava às salas de concerto, aos auditórios especiais, falecia no momento em que o samba – hoje considerado da velha guarda, o típico samba carioca, do morro ou da cidade, atingia o apogeu: Sinhô e Caninha glorificados e já estavam em franca circulação Noel, Ismael, Ary Barroso, Pixinguinha, Benedicto Lacerda e outros mais.

Ernesto Nazareth – composições: A Voz do Amor; Brejeiro; Odeon; Cutuba; Ranzinza; Rayon D’Or; Mesquitinha; Batuque; Carioca; Atrevido; Apanhei-te cavaquinho; Bambino; Digo; Turuna; Mercedes; Exuberante; Dora; Noêmia; Turuna; Famoso; Está Chumbado; Favorito; Marieta; Eulina; Quebra-cabeça; Travesso; Catrapus; Duvidoso; Chave de ouro; Melusina; Pipoca; Elite-Clube; Nazaré; Arrufes; Gentil; Você bem sabe; Primoroso; Cruz; Rindo e Pulando; Labirinto; Atrevidinha; Neve de julho; Meiga; Alblingia; Dirce; Elétrica; Elegantíssima; Encantada; Pássaros em festa; Chile-Brasil; Gotas de Ouro; Cavaquinho, por que choras?; Turbilhão de beijos; Flor dos meus sonhos; Zizinha; Sagaz; Sustente a neta; Polenaise; Iris; Orminde; Pierrô; Crê e Espera

Correio da Manhã
27/01/1965

 
Vogeler: resposta do tempo
Correio da Manhã 19/11/1964

Sinhô: o rei do samba
Correio da Manhã 25/11/1964

Pixinguinha: Dos Sete Instrumentos
Correio da Manhã 02/12/1964

Ismael: o bamba do Estácio
Correio da Manhã 09/12/1964

Orestes: Poesia e Seresta
Correio da Manhã 16/12/1964

Francisco Alves: o rei da voz
Correio da Manhã 23/12/1964

Benedito Lacerda: ou A Flauta de Prata
Correio da Manhã 30/12/1964

Cândido das Neves “Índio”: seresteiro da cidade
Correio da Manhã 06/01/1965

Orlando Silva: o cantor das multidões
Correio da Manhã 13/01/1965

Noel Rosa: Poeta da Vila, do Samba, do Povo
Correio da Manhã 20/01/1965

Ernesto Nazareth: o criador do tanguinho
Correio da Manhã 27/01/1965

Carmen Miranda: "A pequena notável"
Correio da Manhã 03/02/1965

Joubert de Carvalho: o criador de "Maringá"
Correio da Manhã 10/02/1965

André Filho: da Cidade Maravilhosa
Correio da Manhã 17/02/1965

Mário Reis: Rei da bossa
Correio da Manhã 24/02/1965

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