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Carmen Miranda: "A pequena notável"

Entre os cantores de nossa música popular, Carmen Miranda foi quem maior prestígio e fama colheu. O seu êxito estravasou dos nossos limites internos para o plano internacional. Chegou a ser uma das artistas mais bem pagas nos Estados Unidos, havendo estrelado uma série de filmes produzidos em Hollywood: “Serenata Tropical” (Down Argentina Way); “Uma Noite no Rio” (That Night in Rio); “Se Eu Fosse Feliz” (If I’m Lucky) “Aconteceu em Havana” (Weekend in Havana); “Copacabana” (Copacabana); “O Príncipe Encantado” (A Date with Judy); “Romance Carioca” (Nancy goes to Rio); “Morrendo de Medo” (Scared Stiff).
Todo esse pretígio faz justiça ao talento. Foi, talvez, a nossa maior cantora, apesar de Elysa Coelho, de Marília Batista, de Araci de Almeida, de Aracy Cortes, de Inezita Barroso, de Elizete Cardoso. Seu filete vocal possuia um timbre dos mais expressivos, permitia-lhe o virtuosismo de vocalizar no samba, proporcionava um fraseado rápido, com um silabar leve, corrido, de estupenda plasticidade. Outra característica do seu estilo: cantava sorrindo, sem quebrar o ritmo – antes, conferindo-lhe maior vivacidade em certos casos – e sem derramar a unidade de interpretação num palavreado caótico. Mas sabia também se dolente e melancólica. Essa outra face da intérprete tem logo um exemplo decisivo: o samba de Sinval Silva, “Adeus Batucada” – grande samba e uma das maiores criações vocais da cantora: “Adeus, meu pandeiro do samba/ tamborim de bamba/ já é de madrugada/ vou-me embora chorando/ com meu coração cantando…”
É curioso, por outro lado, ressaltas o grande número de cantores e, mesmo, compositores que gravaram em dupla com Carmen Miranda: Francisco Alves, Mário Reis, Dorival Caymmi, Sylvio Caldas, Almirante, Ary Barroso, Luís Barbosa, Barbosa Júnior, Murilo Caldas. Com Chico Alves, lembramos o samba de Evaldo Rui, “Ninho Deserto”; com Mário reis, o excelente “Alô?... Alô?...” (“Alô? Alô?, quem falar? Responde com toda sinceridade/ Alô? Alô?, responde/ se gosta mesmo de mim de verdade”); com Dorival Caymmi, cantor e compositor, então no início da carreira recordamos o notável “A Preta do Acarajé”, em que os seus acorede vocais, em notas de grande beleza, contrastam com os graves cheios e generosos de Caymmi – lembramos também o famoso “O Que é Que a Baiana Tem?”; com Sylvio Caldas, gravou, por exemplo, “Quando Eu Penso na Bahia”, num bom momento, quando ambos mantinham-se no apogeu; com Almirante, temos o grande e famoso “Boneca de Piche”; com Luís (chapéu de palha) Barbosa, o super-conhecido e divulgado “No Tabuleiro da Baiana”; com Murilo Caldas, “Isola… Isola”; com Barbosa Junior, muitos sucessos: “Quem é?”, “A Pensão de Dona Estela”, “Blauqe-Claque” e “Ginga-Gina”; finalmente, Ary Barroso faz a introdução futebolística para o ótimo “Deixa Fala”.
Nos Estados Unidos, Carmen Miranda fez várias gravações e, habitualmente, aparecia nos seus filmes estereotipada na fantasia de baiana. Pode-se afirmar, sem susto, que, tirando a fama mundial e os polpudos caches, todo o seu longo período ianque quase em nada contribuiu para o aspecto puramente criativo de sua carreira de intérprete. E memso quando acompanhada pelo Banda da Lua. Mas, apesar da distância, a sua popularidade, aqui, permaneceu intacta. Quando morreu, seu corpo foi transladado para o Rio de Janeiro e o enterro foi um dos maiores da cidade, quase tão concorrido como o de Chico Alves.

Maria do Carmo Miranda da Cunha nasceu em Marco de Canavezes, Portugal, a 9 de fevereiro de 1909. Com um ano de idade, já estava, porém, no Brasil. Desde cedo, tomando parte em festas e representações de colégio, a sua vocação para cantar se manifestou. Mas seu pai era contrário a fazer, disso, uma profissão. Resultado: Carmen foi trabalhar numa loja de chapéus, à Rua do Ouvidor. Contudo, o destino do sucesso apareceu encarnado no compositor Josué de Barros, quando, em 1928, procurava organizar uma festa de caridade no Instituto Nacional de Música. Foi apresentada a este ultimo, que logo, manifestou-se extremamente bem impressionado com o seu talento. Daí, levou-a para a radio e para as gravadoras. As duas primeiras interpretações, em disco, são duas músicas do próprio Josué de Barros, “D. Balbina” e “Triste Jandaia”, no selo Victor. Fez uma gravação a Brunswick e logo retornou a Victor, apresentando uma marchinha de Josué, com grande sucesso: “Iaiá Ioiô”. A seguir, foi o grande salto para a popularidade definitiva, a marchinha “Pra Você Gostar de Mim”, ou melhor, o conhecidíssimo “Tá i’: “Tá I, eu fiz tudo para você gostar de mim/ ó meu bem, não faça assim comigo não/ você tem que me dar teu coração”. Seu autor, é Joubert de Carvalho, que alias, no número da “Revista da Música Popular”, editado em homenagem à cantora, então recém-falecida, presta um depoimento de como foi lançada “Tá i”. “Diante de seu maior espanto, dei-lhe a música prometida, não havia 24h ainda. Dispunha-me a lhe ensinar a cantar a marchinha, que outra não era senão a depois célèbre “Taí” (Prá Você Gostar de Mim), quando ela, com muito espírito, e seus olhos brejeiros, vivos, maliciosos, fez a seguinte observação: (Piscando um olho) Não me precisa ensinar que na hora da bossa eu entro com a bossalidade”.
“Tá i”, composta logo depois do carnaval daquele ano, constitui grande sucesso do carnaval do ano seguinte, 1931. Daí em diante, nada mais poderia impedir a glória daquela que seria chamada “a pequena notável”. A sua voz, os seus discos, conquistavam a cidade e, durante o período em que gravou na Victor (até 1935), marcou especialmente a contribuição com músicas de carnaval. As suas marchinhas eram envolvidas por um tom inconfundível de malícia brejeira que sabia imprimir ao canto: Exemplos: “Amor! Amor!” (“Eu tenho uma coisinha boa/ cosinha boa/ parece atoa/ mas é muito boa…”); “Moleque Indigesto”, de Lamartine Babo (“Eta, moleque bamba/ pega a cabrocha, pisca o olho e cai no samba”); “Um Pouquinho de Amor…”, de Joubert de Carvalho, esta, uma das maiores marchas de todos os carnavais “Ofereceram-me um palácio à beira-mar/ com muito luxo para eu ir lá morar/ colar de pérolas, brilhante, esmeraldas/ de vez em quando, Caxambu, Poços de Caldas/ Tudo aceitei/ mas com uma condição/ dar liberdade ao coração/ se nesta vida/ todos passam pela dor/ ninguém passa, ninguém vive/ sem um pouquinho de amor”. Mas também haviam, sem dúvida, os sambas: o fabuloso “Malandro”, de André Filho, gravado e, 1930, com acompanhamento de coro e choro, onde se parece reconhecer a flauta de Pixinguinha, e solar espetacularmente: “Malandro, malandro, tu sabes que eu te quero bem…”, onde uma voz masculina, que não indentidicamos, repete sempre a expressão “te quero bem”; “Aconteceu”, um dos melhores sambas de Ary Barroso, que entrava em sua fase mais autêntica: “Anoiteceu, nenhuma estrela apareceu/ noite escura no céu e no meu coração…”; “Chegou a Turma Boa”, de Valfrido Silva, coma inesquecível entrada: “Chegou Iaiá, chegou Ioiô a turma que tem alegria pra dar e vender”; o já citado “Alô?... Alô?...”, de André Filho; “Ao Voltar do Samba”, um dos grandes sambas de Sinval Silva, compositor que foi lançado por Carmen Miranda, com poucas músicas, mas quase todas de alta qualidade: “Ó Deus, eu me sinto tão cansada/ ao voltar da batucada/ que tomei parte lea na Praca Onze/ ganhei no samba um arlequim de bronze minha sandália quebrou no salto/ e o pezinho do meu mulato lá no asfalto”; “Coração”, outro samba de Sinval Silva: “Coração, governador da embarcação do amor/ coração, meu companheiro na alegria e na dor…”; o mais “Minha Embaixada Chegou”, de Assis Valente; “Na Batucada da Vida”, de Ary Barroso e Luiz Peixoto; “Sapateia no Chão”, de Assis Valente: “Nunca Mais”, de Bide e Marçal.
Quando passou a graver na Odeon (1935), o pestrígio de Carmen Miranda já estava consolidado. E aparecia no cinema: - “Alô, Alô… Carnaval”; “Noites Cariocas”. Veio, então a fase, de suas músicas que ficaram mais famosas, embora, nem sempre, isso implique numa superioridade ao período anterior. Logo no início, surgiu o já mencionado “Adeus Batucada”, de Sinval Silva – um dis maiores sambas cantados pore la e uma das maiores peças do nosso cancioneiro popular. Em 1937, grava um disco que consistiu um dos êxitos marcantes. De um lado, acompanhada pelo regional de Pixinguinha e Lupérce, a marcha de Ary Barroso, “Como Vais Você?”; “Como vais você?/ vou navegando/ vou temperando/ pra baixo todo santo ajuda/ pra cima a coisa toda muda”; do outro, em dupla com Luís Barbosa, o batuque de Ary Barroso, “No Tabuleiro da Baiana”: “No tabuleiro da baiana tem/ vatapá, oi, cariri/ pra você…” Ainda esse ano, vem o notável “Camisa Listada”, de Assis Valente: “Vestiu uma camisa listada e saiu por aí/ botou o seu anel de doutor pra não dar o que falar…” Em 1938, logo de saída, outro hit de Assis Valente. “E o Mundo não se Acabou”: “Anunciaram e garantiram que o mundo ia se acabar/ por causa disso toda gente lá no morro começou a rezar…”; depois, “Boneca de Pixe”, em dueto com Almirante, uma das maiores criações de Ary Barroso, em dupla com Luis Iglésias; a seguir, o internacionalmente famoso “Na Baixa do Sapateiro”, ainda de Ary Barroso. Em 1939, surge um dos seus maiores duetos, “A Preta do Acarajé”, com voz e música de Dorival Caymmi: na outra face, “O Que é Que a Baiana Tem?”, música também de Caymmi, cantando em dueto com o mesmo. Foi neste ano que o empresário Lee Schubert decidiu convidá-la para ir aos Estados Unidos. Ela aceitou, levando consigo o Bando da Lua. E também foi retumbantemente aceita pela público norte-americano. Daí, já foi um pulo para o cinema, já, ao mesmo tempo, estilizando-se em vestes brancas e trejeitos extravagantes, atendendo, na certa, aquela necessidade que tem o público norte-americano de consumir o “exótico”. Esteve de volta ao Brasil, en passant, no período 40-41 e, entre outras coisas, lançou o fabuloso “Recenseamento”, de Assis Valente, com uma letra instigante, dotada da rima-surpresa: “Em mil novecentos e quarenta/ lá no morro começaram o recenseamento/ e o agente recenseador/ quando esmiuçou a minha vida foi um horror/ e quando viu a minha mão sem aliança/ encarou para a criança/ que no chão dormia/ e perguntou se meu Moreno era decente/ se era do batente/ ou era da folia”. A segunda parte da letra é um “cabedal” de enumerações caóticas sobre fatos brasileiros, configurando o absurdo de um modo bastante satírico.
Depois, ela apenas retornou ao Brasil uma vez, já em 1954, para cuidar de sua saúde, aproveitando para rever os velhos companheiros. No ano seguinte, a 5 de agosto, more em Beverly Hills. Seu corpo foi imediatamente transportado para o Rio de Janeiro, onde realizou-se o enterro. Nesse mesmo mês, a Revista da Música Popular publicou um número extra, dedicado inteiramente à grande cantora que falecia, contendo centenas de depoimentos sobre a sua arte e a sua pessoa: desde o Presidente da República até os mais modestos colaboradores da cantora e atriz cinematográfica, que, Segundo o medico norte-americano que a atendeu no ultimo instante, faleceu repentinamente devido a uma oclusão das coronárias.

Discografia

A única discografia de Carmen Miranda é a de Ary Vasconcellos, publicada no seu “Panorama de Música Popular Brasileira”. Vamos ajudar a completá-la com outros títulos nela omitidos. No caso, apresentamos, inicialmente, a relação de algumas gravações, das quais não dispomos dos lançamentos originais e, assim, não temos a correlação entre as duas faces de cada disco original, nem o número do selo. Apresentamos, então, o número da matriz. A seguir, uma relação normal – face A, face B – de outros discos omitidos.

1 – Um pouquinho de amor… - marcha – Joubert de Carvalho – Victor (79646) – Carmen Miranda com orquestra (possivelmente Diabos do Céu).
2 – Na batucada da vida – samba-canção – Ary Barroso e Luiz Peixoto – Victor (65957) - Carmen Miranda com orquestra (possivelmente Diabos do Céu).
3 – Sapateia no chão – samba – Assis Valente – Victor (65912) –Carmen Miranda com regional
4 – Na Bahia – samba-jongo – Herivelto Martins e Humberto Porto – Odeon – Carmen Miranda com Trio Dalva de Oliveira e conjunto regional.
5 – Miss Sertão – samba – Plínio de Brito e Domingos Margarinos A Mulhé quando não qué - lundu – R. S. de Mello – Victor nº 33.339 – Carmen Miranda acompanhada de choro.
6 – Malandro – samba – André Filho – Cuidado, hein! - marchinha – André Filho – Victor nº 33.731 - Carmen Miranda acompanhada de choro e coro.
7 – Mulatinho bamba – marcha – Ary Barroso e Kid Pepe Anoiteceu – samba – Ary Barroso – Victor nº 33.904 – Carmen Miranda com os Diabos do Céu
8 – O dengo que a nêga tem – samba – Dorival Caymmi – É um quê que a gente tem – samba – Ataulpho Alves e Torres Homem – Odeon nº 11.976 – Carmen Miranda com acompanhamento do Conjunto Odeon.
9 – Upa, upa - marcha – Ary Barroso e Ervin Drake – Tico-Tico no fubá – samba-choro – Zequinha de Abreu, Ervin Drake e Aloysio de Oliveira – Decca nº 288.084 – com Carmen Miranda com o Bando da Lua

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03/02/1965

 
Vogeler: resposta do tempo
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